Eu, viajante
A repórter Maranúbia Barbosa relata o que sentiu ao romper as fronteiras para encontrar o islã
Que poderia eu querer em terras islâmicas? O que tentei encontrar quando estive dormindo em tendas, tentando proteger os olhos da areia que o vento tocava? Por que quis percorrer desertos, acenar para caravanas que passavam ao largo? Que gosto tinha o pão que me deram, a coalhada que bebi, a tâmara que colhi nos oásis que passei? Por que não ouço em nenhum outro lugar do mundo o mesmo canto daquelas mulheres e o som do alaúde? Fui e voltei a muitos países islâmicos, mas não encontrei as respostas.
Descolei da minha bagagem qualquer tipo de rótulo e parti para países islâmicos. Ainda assim, desembarquei como estrangeira. A primeira muçulmana que vi andando coberta com o chadour preto foi em Istambul, na Turquia. Não é uma visão fácil para um ocidental. Imagina-se de imediato que o corpo coberto representa a repressão feminina. Nós, do Ocidente, tendemos a achar que a roupa, assim como o modo de vida, os ritos religiosos e os costumes do cotidiano islâmico não são democráticos como seriam os do mundo ocidental. Queremos, por considerarmos que somos mais modernos e zelosos da liberdade individual e coletiva, que os países que não compactuam do mesmo tipo de vida, se moldem e se espelhem em nós. Por conta disso dividimos o mundo entre Nós e Eles. Sob a Nossa ótica, Eles são o Outro, esquisitos, estranhos, perigosos. Criou-se sutilmente, sem que as pessoas tenham se apercebido, o maniqueísmo, que divide o mundo entre o Bem e o Mal.
Busquei entender o islã viajando pelo Egito, Síria, Jordânia e Iraque. Nunca deixei de ser estrangeira para as pessoas que cruzaram meu caminho. Uma beduína, viajante como eu, traduziu em seu olhar o espanto ante a minha presença. Na fotografia registrei meu olhar e o dela: estrangeiras, uma para a outra. Cidades, estradas, vilarejos, rebanhos, caravanas, tudo vi e não consegui respostas para a razão da minha viagem.
Em Amã, capital da Jordânia, ao raiar a madrugada, acordei ao ouvir o muezzin (líder religioso) chamando para a primeira oração do dia e saí na janela. Vi o minarete de uma mesquita e senti a solidão própria dos viajantes. Existe na língua francesa uma palavra que não tem tradução específica para o português: depays, que pode ser entendido como estar sozinho e fora de território. Foi ali, então, naquelas terras estranhas que encontrei meu próprio eu.
Trago hoje, como os árabes, a marca do deserto, que nos imprime a todos o gosto pela liberdade, pela vida frugal e solidariedade. Dormi em suas tendas e comi um banquete de pães ázimos, beringelas, pepinos, cebolas, geléia de abricô e tâmaras. Tentei entender sua língua, ouvi suas preces cinco vezes ao dia. Deixei lá amigos, que me escrevem e perguntam a data de minha volta. Respondo: bukra (amanhã).(M. B.)





