‘‘Eu sou o último dos moicanos’’
Ex-lutador de boxe, ex-garçon e um dos cantores que mais vendem discos no Brasil, Nelson Gonçalves daria um belo filme - já inspirou peça de teatro - por conta de suas histórias. Ele passou por momentos difíceis na vida, nos anos 50 e 60, quando era viciado em cocaína. Chegou a ser preso em 1966, por causa disso, e acabou se transformando no ‘‘chefão’’ da cela nos três meses em que passou trancafiado, depois de ter socado o valentão Quinzinho. Mas acabou dando a volta por cima, largou o vício e conta orgulhoso que espera ser lembrado ‘‘como o pai de oito filhos adotivos, hoje todos formados’’.
‘‘Eu caí e soube me levantar’’, costuma dizer em suas entrevistas recheadas de bons casos. Em 60 anos de carreira, ele soma cerca de duas mil músicas gravadas. Até hoje, foram 183 discos de 78 rotações, mais de cem compactos, cerca de 200 fitas, 127 LPs e dezenas de CDs, num total de mais de 55 milhões de cópias vendidas, que lhe deram 15 discos de platina e 41 de ouro. Ele é remanescente da geração de Francisco Alves e Orlando Silva e se considera ‘‘o último dos moicanos’’.
Lembranças Mágoa, ele guarda pelo menos uma, dos tempos em que era garçon em São Paulo e tentou a sorte num concurso de calouros no Rio, comandado por Ary Barroso. Nelson é gago, mas quando canta sua voz sai firme, forte. Só que, no dia do concurso, depois de ouvi-lo cantar o implacável Ary perguntou ao candidato - que na época atendia pelo nome de Quincas Gonçalves: ‘‘O que você faz em São Paulo, meu filho?’’ Timidamente, o calouro respondeu: ‘‘Sou garçon’’. E Ary ironizou: ‘‘Pois continue como garçon porque pra cantor você não serve’’.
Tempos depois, na década de 70, já consagrado em todo o País, quem julgou sua voz foi um policial rodoviário que parou o carro que o levava a um show, numa cidade do interior paulista. Seu motorista pisou fundo no acelerador e, na hora da bronca, explicou ao guarda que estava levando o cantor Nelson Gonçalves para um show e havia se atrasado. Meio desconfiado, o policial ficou espantado com a gagueira do passageiro e pediu que ele cantasse ‘‘Renúncia’’, de Mário Rossi e Alberto Martins. Nelson soltou o vozeirão:
‘‘...A minha renúncia/ enche-me a alma e o coração de tédio/ A tua renúncia/ dá-me um desgosto que não tem remédio/ amar é viver...’’
O policial continuou duvidando, mas liberou o carro: ‘‘Você não é o Nelson Gonçalves, mas conseguiu imitá-lo muito bem. Meus parabéns!’’
(Ademir Fernandes/AE)

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