Eu sou a mãe-pátria que faz 500 anos - Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Eu sou a mãe-pátria que faz 500 anos
O rosto do país só vai aparecer com o fim das ilusões
Arquivo FolhaEu sou a mãe-pátria amada de mil faces. Estou em toda a parte e em lugar nenhum. Sempre quiseram dar-me uma identidade, mas eu não tenho um rosto só. No início, eu era a mãe violenta e mística, a bandeira catequista para encobrir a missão predatória que faziam no país real. Eu era usada para abençoar índios de camisola e navios negreiros.
Depois, eu fui a mãe escravista e mercantil do Império, defendendo o atraso de todos para o bem de alguns. Na República fiquei menos rural, mas virei a auriverde mãe-positivista, entre florões e raios apontando para um eterno futuro.
Nos anos 30 e 40, virei uma mistura de madona art deco com alegoria populista. Falavam de mim nos hinos, nas capas de cadernos escolares, nas fachadas de hospitais, eu era a virgem mãe nacionalista a ser defendida dos inimigos estrangeiros mas, na verdade, eu servia para proteger meu pior inimigo: o patrimonialismo enquistado nas dobras do Estado.
O após-guerra mudou o mundo, mas eu continuei a ser uma grande aquarela brasileira onde cabiam todas as ilusões. Eu era abençoada por Deus e tinha a nitidez dos quadros acadêmicos, eu justificava o erro dos políticos com meu firmamento estrelado, minas de ouro, leitos de petróleo, sempre com a promessa de futuro.
Com Brasília, acharam-me fora de moda, com minha alma agropastoril. Eu não seria mais Cy, a mãe-do-mato, cercada de curupiras, boitatás, sacis. Virei um canteiro de obras, esqueletos de edifícios eu era a arquiteta da utopia. Deixei de ser índia. Cobriram minha nudez de Iracema com meias de náilon, grandes luvas negras, escarpins dos anos 60. Nasci para o mundo como uma miss grávida de modernidade, que acabaria com a miséria pelo parto das tecnologias. Mais uma vez, eu era o emblema de uma nova ilusão dos brasileiros. Transformaram-me em aeroporto para o amanhã mágico, um viaduto imaginário por cima da miséria do povo.
Mas, o subdesenvolvimento persistia mesmo sob a asa branca da capital utópica, e eu fui sendo transformada numa nova alegoria. Agora, em 1963, era preciso que eu fosse a mãe da Justiça e que em minhas mãos estivessem a espiga de milho dos camponeses e a roda dentada da indústria. Eu iria parir um tipo novo de socialismo sem sangue, um socialismo cordial que viria por decreto do presidente Jango. Eu seria uma mãe-coragem sem guerra, que realizaria todos os desejos, faria as reformas de base e, entre as tochas dos comícios utópicos levadas por jovens que se achavam o sal da terra, eu aboliria a luta de classes e seria a mãe da revolução cordial.
Mas, meus filhos ingênuos não contavam com a infinita mesquinhez dos poderosos, que esta aparente cordialidade escondia, pois as elites não queriam me ver sujando as mãos nas favelas e no campo, acolhendo miseráveis. Assim, na ditadura militar, eu fui tirada do pedestal utópico e popular e uma nova mãe-pátria foi criada, agora no altar positivista dos tenentes tardios. Abriram-me novos céus estrelados, fizeram-me de novo a índia de camisola verde-oliva, a triste mãe dos quartéis, a feroz guerreira parnasiana dos discursos militares. Durante esses anos, meus filhos tiveram medo de mim, mãe castradora, seca, cruel.
Por isso, outras mães-pátrias surgiram nos sonhos dos brasileiros desesperados. Eu virei a deusa trágica dos heróicos guerrilheiros urbanos, a mãe-trapezista dos abismos, a estrela dos suicidas. Eu virei também a mãe das torturas. O torturador girava máquinas elétricas e entre gritos, pensava estar me defendendo, a mim, uma vaga mistura de seios ensanguentados e rostos de meninos-cadáveres. Eu fui também a mãe dos assassinos, eu fui a mãe armada de punhais e raios, eu fui a mãe dos paranóicos lutando contra a mãe dos idealistas loucos. Enquanto isso, eu pensava com saudades nos meus filhos do Brasil real, feito de madeira podre, caixote, barbante, lama e favela. Eu estava com eles, mas ninguém me via.
No fim da ditadura, eu renasci como a mãe-democrática na campanha das diretas-já, o futuro de uma vida nova que viria. Mas, chegou a liberdade e eu não cheguei. A liberdade veio torta, marcada pela morte de Tancredo. Os planos econômicos fracassavam e não chegava a felicidade que eu traria. E meus filhos começaram a me maldizer, ao ver que a democracia era de boca, que as instituições eram oligárquicas e que o país era pilhado pelas ex-vítimas da ditadura. Fui a mãe do desencanto e me fragmentei em muitas mães-pátrias e, de pátria amada, fui virando a mãe odiada.
Hoje sou a mãe dos desorientados. Sou a mãe de velhos militantes regressistas, comandando massas imaginárias, sou a mãe americana dos neoliberais, a mãe do Mercado, sou a mãe suja dos corruptos, sou a mãe terrível que abandonou os filhos no corredor do hospital sem leitos, sou a mãe aborteira dos brasileiros natimortos, sou a mãe criminosa dos massacres, sou a mãe dos mortos nas prisões, sou a mãe das secas, a mãe da poluição, sou a mãe da fome, a mãe paralítica dos burocratas, sou a mãe dos pixotes assassinados, a mãe das putinhas dos garimpos, a mãe dos esgotos, mãe do medo.
Mas, em meio a esta democracia de escândalos, vai aparecendo meu novo rosto mais verdadeiro. Meu manto de estrelas será tecido de trapos e deixarei de ser uma deusa longínqua, uma ilusão e, aos poucos, os homens aprenderão a me chamar de realidade, porque eu nunca estive nem no passado nem no futuro; eu sempre estive aqui, mãe-pátria feita de pobreza, caos e paralisia.
Mas, eu me prefiro assim pois irei surgir da morte das mentiras, hinos e discursos que enganaram meus filhos. E quando todos os sonhos falsos forem esquecidos, sob um céu de anil, sim, com o vatapá, o ouro e as danças , sim, com a alegria das três raças, eu vou ressurgir como uma pátria real. E só então, entre rios e florestas, poderei fazer alguma coisa por vocês, meus filhos queridos...





