Célia Musilli
De Londrina
De acordo com as previsões o mundo acaba hoje e muita gente vai tentar ver os anjos anunciando à humanidade o fim da linha. Atenção: não adianta mais arrepender-se dos pecados. Não há tempo para desfazer enganos, recuperar amores, saldar dívidas, perdoar inimigos de longa data. Bem que avisaram no início que chegaria o dia do Juízo Final. O calendário implacável marca 1999. O ano 2000 chegará? Ou vamos virar canja na manhã deste 11 de agosto que prenuncia o big bang às avessas?
BUM... tem gente fazendo planos para as últimas horas neste mundo. Os simples querem rezar, ler poemas, ouvir música no dia derradeiro. Os aventureiros, sair de barco, andar nus, arriscar-se de asa delta. Os ambiciosos apoderar-se do dinheiro dos cofres. Mas que dinheiro, que cofres? Mais um pouco e tudo acaba.
Da minha parte prefiro beber vinho ou uísque com três pedrinhas. Andar descalça. Chegar ao fim duas doses acima, com os olhos bem arregalados para não perder nenhum lance. O instante final será um espetáculo grandioso. Deus não está para brincadeiras. Ou será coisa de cinema a visão das chamas engolindo tudo, a grande hecatombe em que seremos lançados, sem dó nem piedade, aos gritos de ai, ui? Eu pago pra ver...
Alguns sonham com o barranco para morrer encostados. Última homenagem ao ócio que ambicionamos e desprezamos para não sermos chamados va-ga-bun-dos. Aliás, este palavrão que significa vaguear, vadiar, errar no sentido de andar por aí sem eira nem beira, não passa de um conceito moralista que nos impede de cruzar os braços porque vontade não falta de passar os dias na inocência, alheios às obrigações que nos impuseram ninguém sabe o porquê. Falta do que fazer dá nisso. Sempre aparece alguém para ditar as regras. Mas, e agora José? Se o mundo acaba do que adiantou ficar sem férias, declarar imposto, fazer o jogo do chefe, aceitar suborno, economizar em real, rebolar para comprar carro novo, apartamento duplex, roupa de grife, pensar no ‘‘futuro’’ das crianças, boicotar o presente dos velhos? Tudo pode acabar assim, num estalar de dedos, como se o mundo fosse um ovo pronto para virar omelete.
Justo hoje, quando penso que seria engraçado sair por aí fantasiada de anjo, assombrar carolas, dançar nas ruas, ironizar até o último instante, lembro que no início era o caos e no fim ... o caos continua. Ou será que isto é problema dos brasileiros que perguntam desde o começo: Por que nós? Será carma? Brincadeira de Deus? Diversão do diabo? A gente sempre pensa que vai chegar lá e logo agora, quando vamos virar o século e superar a maldição dos 500 anos, o mundo acaba José...
Se não acabar, vou preferir novos ângulos. Viver melhor evitando o stress e a maledicência do cotidiano. Respirar fundo porque há ar para os pulmões e tempo livre José, tempo livre para viver a vida como viemos ao mundo. Mais puros e mais vagabundos como o anjo inútil que toca trombetas anunciando um futuro que nem virá.

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