Eu não sou Odete Roitman
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de dezembro de 1997
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Luiza Dantas/Carta Z NotíciasBeatriz Segall: Quem teve um personagem na tevê, que mesmo depois de nove anos as pessoas não esquecem?A surpresa é inevitável. Beatriz Segall não é distante, fria ou ríspida, como fazem supor as personagens do gênero que já interpretou na tevê. Ao contrário. Simpática, ouve com interesse e fala de todos os assuntos com tranquilidade. Não sou Odete Roitman, desfaz a má impressão. Contratada por obra certa, negou muitos convites para voltar à tevê até aceitar o papel de Clotilde, matriarca de uma família quatrocentona falida, em Anjo Mau.
Qualidade é a palavra-chave que seduz Beatriz para novos trabalhos hoje em dia. Foi o que a atraiu em Anjo Mau. O público percebe quando a novela é bem feita. Beatriz sabe do que está falando. Tem quase 40 anos de profissão e carrega tanto motivos de orgulho como de arrependimento ao longo de sua trajetória artística. Já fiz novelas em que achava tudo ruim. Aí fico afastada dois, três anos da tevê até esquecer.
Beatriz não menospreza o que assimilou nas escolas de teatro. Mas fala que onde mais aprendeu foi na prática. Sempre ouvi os colegas mais experientes, admite. E como no teatro produz as próprias peças, já está pensando em três textos para montar ano que vem - um inglês, um americano e um alemão. E afirma, enfaticamente, que no teatro, como pode escolher, só trabalha com os melhores atores. No cinema, no entanto, ainda não teve sorte. Só me chamam para fazer papéis bestas. Estou esperando algum que valha a pena, avisa.
Você ficou longe da tevê três anos. Por que demorou a voltar?
Beatriz Segall - Nunca fiz contrato permanente com emissora nenhuma. Faço contratos por novela. Isso me dá uma certa liberdade para aceitar ou não os convites que me fazem. Em televisão, normalmente a gente não escolhe, é escolhida. No teatro é diferente, sou eu quem determino a peça que vou fazer, como vou fazer e com quem vou fazer. Em televisão, eu não pio. O máximo que posso fazer é dizer não. E isso já fiz algumas vezes.
E o que fez você dizer sim desta vez?
Beatriz Segall - A autora, Maria Adelaide Amaral, a direção de Denise Saraceni com supervisão de Carlos Manga. Ih... Se for para citar, tenho de citar todos senão os outros reclamam. Tem, também, os dois assistentes da Denise, o Emílio Di Biasi e o José Vilamarim. Com todos eles está sendo muito bom trabalhar. O que esta novela está tendo de especial é um espírito de união dentro da produção, como nunca encontrei na Globo. Primeiro, há vontade de fazer bem feito. Além disso, há um nível de delicadeza, atenção e respeito pelas pessoas que trabalham, o que é muito importante porque ajuda no desempenho e a tornar todo ambiente muito agradável.
Anjo Mau está recebendo um cuidado especial da Globo. Por quê?
Beatriz Segall - É a idéia que quanto melhor a qualidade, mais a novela agrada ao público. Isso é batata. Funciona em qualquer ramo da atividade humana e na televisão também. Pessoas pouco preparadas dentro da profissão não se dão conta que quanto mais se trabalha, mais se cresce. Isso, para mim, é um pensamento constante. Quando as coisas não têm qualidade eu sofro. Aí saio do ar e fico dois ou três anos sem fazer televisão. Até esquecer como foi ruim fazer a última novela.
A autora Maria Adelaide Amaral disse que a escolheu para a personagem por considerá-la muito sofisticada. Você, pessoalmente, se acha sofisticada?
Beatriz Segall - Não, sou uma pessoa simples. O que acontece comigo é que eu gosto de coisas bonitas e de delicadeza. Acho que o bonito não tem nada a ver com poder aquisitivo. Se isso é ser sofisticada, talvez eu seja.
Como foi o período que você estudou na Sorbonne?
Beatriz Segall - Morei um ano e meio na França e fiz dois cursos na Sorbonne. Um de Língua e Literatura Francesas, porque era professora de francês no Brasil. O outro foi um curso de teatro para estrangeiros, que era dado por professores da Comédie Française. Quando dizem que estudei na Sorbonne, pensam que eu tenho o mesmo grau do Fernando Henrique Cardoso. Não é nada disso. Foram dois cursos muito importantes, mas não fizeram de mim uma intelectual.
A elegância em cena também foi importada de Paris?
Beatriz Segall - Não. Tem uma pitadinha da Dona Débora, minha mãe. Mamãe era muito exigente. Uma coisa que eu repito sempre é que o fato de uma pessoa se arrumar para ir a casa de alguém é uma forma de deferência. Com quem você vai encontrar e com você mesmo. Isso vira um hábito. Tudo se aprende na vida. E tem algumas coisas com as quais você já nasce. Acho que nasci com nariz empinado.
Você surpreende pelo seu jeito tranquilo...
Beatriz Segall - Não sou a Odete Roitman. Na rua, as pessoas me dizem: Você anda boazinha, hein?!. Uma amiga minha também ouviu duas moças conversando, depois que eu passei. Uma dizia: Até que ela tem uma cara boa!. E a outra respondeu: Dizem que quem faz papel de má, na verdade, tem de ser boa. Essa criou uma teoria de teatro que nem Stanislavski havia pensado...
Você chegou a ouvir cobras e lagartos do público quando interpretou a Odete Roitman?
Beatriz Segall - Isso é uma mentira que está na imaginação das pessoas. Por causa dessas revistecas que quando não têm o que publicar, inventam. Não é verdade. Nunca fui agredida. Para falar a verdade, há muitos anos, quando vivi a Lurdes Mesquita, de Água Viva, fui a um shopping em São Paulo e uma moça me agrediu muito verbalmente. A ponto de eu chamar a segurança. Mas era uma moça desequilibrada, doente. Foi a única vez. Fora isso, nunca aconteceu nada. As pessoas adoravam a Odete Roitman. E a Lurdes Mesquita também.
Então você não odeia a Odete Roitman, como chegou a ser publicado na imprensa?
Beatriz Segall - A Odete Roitman foi um papel maravilhoso. Quem teve um personagem na tevê, que mesmo depois de nove anos as pessoas não esquecem? Aliás, todos os personagens de Vale Tudo. A Maria de Fátima, da Glórias Pires... Até a Natália Thimberg, que fazia um papel menor, era minha irmã, teve um personagem maravilhoso. Todos estavam empenhados. A gente adorava fazer a novela. É a tal história: quando um trabalho é de boa qualidade, o público percebe.
O que a televisão representa no seu trabalho de atriz?
Beatriz Segall - Muito. Eu parei de trabalhar por 14 anos quando me casei. Quando voltei, havia os atores de televisão, os de teatro e os de cinema. Eles não se misturavam. Dentro disso tudo, criou-se um certo preconceito contra o trabalho em televisão.
Por quê?
Beatriz Segall - Evidentemente, quando se começou a fazer novela, era uma coisa muito primária. A produção das novelas brasileiras cresceu muito e acho que hoje são as melhores do mundo. Mesmo as novelas mais fracas feitas no Brasil são superiores a qualquer soap opera americana. Isso para não citar as mexicanas ou venezuelanas, que não chegam aos pés das brasileiras. Passar essas novelas no Brasil é um prejuízo para nosso povo. De tanto ver, as pessoas começam por achar que aquilo é representar. O importante não é o veículo, é a qualidade do que se faz. Essa idéia ingênua que o fulano não é muito bom, mas coitadinho, não pode tirar o emprego dele, tem de acabar. As pessoas têm de estar preparadas para aquilo que fazem. Tem de ter qualidade no seu trabalho.
Você é uma pessoa muito crítica?
Beatriz Segall - Sou uma pessoa que escuto muito e também adoro dar idéias. Isso é uma coisa que os jovens normalmente não recebem bem. A gente quando é jovem acha que sabe tudo. A crítica é assustadora. Mas a crítica bem feita pode ser muito útil. Durante os ensaios da peça Três Mulheres Altas, eu e Natália Thimberg trocamos muitas idéias. Em se tratando de uma grande atriz, de uma pessoa extremamente íntegra, é uma dádiva estabelecer essa troca. Por isso, só gosto de trabalhar com gente boa. O ator tem de ter a melhor qualidade possível e bom caráter. Isso é muito importante para a formação de uma carreira.


