Eu não sei fazer músicas comerciais
Eu não sei fazer
músicas comerciais
O Sol de Oslo é o 35º trabalho da discografia de Gilberto Gil. Sua gravadora, a Warner, o cedeu sem pedir nenhuma contrapartida. E ele foi. Eu adorei trabalhar com essa turma, me senti descompromissado porque as responsabilidade foram divididas entre todos- diz ele. Minha imagem está aderida à idéia de criador e nesse disco fiquei mais periférico. Por isso que digo que a rigor o disco não é só meu- complementa.
A presença de Gil em O Sol de Oslo não se limitou apenas a enriquecer o trabalho. De quebra, ajudou a sedimentar o selo Pau Brasil, de Rodolfo Stroeter, e alavancar a carreira de Marlui Miranda, uma musicista talentosíssima que ainda não teve o devido reconhecimento. Essa coisa de pequenos selos que se dedicam a certas especialidades têm uma importância muito grande- raciocina.
Ah, sim, independente da riqueza contida no trabalho, o nome de Gilberto Gil certamente vai contribuir para alavancar as vendas do disco. Nesse ponto, o cantor e compositor baiano questiona o fato de que no Brasil disco tem que vender, vender e vender a qualquer custo. Em mais de 30 anos de carreira, foi um de seus discos mais recentes - Quanta - que ele atingiu o patamar de 300 mil cópias.
Perto de uns e outros, uma quantia pequena. O dono de uma quitanda vive a vida inteira ali criando seus filhos vendendo quiabos, maxixes, abóboras e mesmo assim ele tem a sensação de ser ativo e contribuitivo. Hoje esse pensamento foi modificado e tudo tem que ser grande demais, ninguém se sente recompensado se não houver a glória estática- filosofa. A entrevista que se segue foi concedida com exclusividade à Folha2. A seguir, os principais trechos.
Você disse na entrevista coletiva que nesse disco não houve tanta participação do criador Gilberto Gil, que você ficou mais na periferia. Mas você, Caetano, Milton e Chico ainda são as principais referências. Quem você apontaria como novas referências dessa atual geração?
Gilberto Gil - Há muitas formas de ser grande, né? Os ídolos, os líderes, os cabeças-chave, as figuras referenciais mudam de perfis de época para época. Hoje temos, sim, pessoas influentes, artistas interessantes. Eu considero, por exemplo, na geração intermediária, entre nós e os superatuais, Lulu Santos uma figura desse porte. Acho Carlinhos Brown uma figura com essas mesmas características. A Marisa Monte também, nessa área, porque ela reencarna perfis do tipo da Gal, da Elis, mulheres que tiveram esse tipo de liderança e proeminência. Mas ao mesmo tempo são perfis novos e também parecidos conosco mas já deslocados, já incorporando coisas que não incorporávamos e desprezando outras coisas que incorporávamos. É difícil falar de equivalentes exatos.
É uma questão de épocas, Gil?
Gilberto Gil - É, são épocas diferentes, os processos são diferentes. Na minha época a MPB não estava na televisão. A televisão em si era uma coisa mágica, eram poucas as casas que tinham televisão. Os festivais eram rituais, eram como missas. Hoje tudo isso já ficou mais banalizado. A televisão hoje... Tem a MTV... Há vários apresentadores de televisão que apresentam as paradas de sucesso sistematicamente. Enfim, hoje não precisa mais de televisão. Naquela época os festivais traziam as músicas para as televisões. Hoje a música já está na televisão das formas mais variadas possíveis.
Das formas mais variadas possíveis e mais comerciais possíveis?
Gilberto Gil - Também, também. Hoje tem programas com desfiles óbvios de sucessos até programas do tipo Ensaio (TV Cultura), que apresenta perfis mais elaborados de um só artista. Tudo é válido. Não sei por que seria eu quem iria invalidar.
Mesmo com a Bahia sendo mostrada de uma forma em que a música está nos quadris?
Gilberto Gil - É.
Você gosta do É o Tchan?
Gilberto Gil - Gosto. Gosto porque eles fazem uma coisa que eu não poderia fazer, que eu não saberia fazer.
Música comercial, é isso?
Gilberto Gil - Não sei... É, é isso, exatamente porque eles fazem música comercial que eu gostaria de fazer e não faço (gargalha).
Ser Gilberto Gil, um dos grande nomes da MPB, deve pesar um pouco não?
Gilberto Gil - Não muito. Eu consigo me abstrair um pouco dessa coisa do peso muito grande do personagem que tenho que carregar comigo. Tem horas que é sufocante, tem horas em que queria me ver livre desse personagem. Mas também tem horas em que ele é muito prazeroso, muito gratificante.
Muitos que o entrevistam tocam quase sempre na questão da Tropicália. Não cansa?
Gilberto Gil - Tá, isso cansa porque é muito repetitivo às vezes. Por outras vezes é bom porque passa-se um tempo e alguém pergunta sobre a tropicália e você é obrigado a repensar aquilo e acaba pensando com focos novos. Mas é bom, é bom falar sobre a tropicália. (A.M.J.)





