Em entrevista à Folha2, Rosa Passos fala da vontade de conquistar um público maior e do estilo que alguns já compararam ao de João Gilberto
Você estava dizendo que com esse disco quer atingir um público maior sem perder a sofisticação. De que maneira se faz isso?
Olha, eu acho assim: eu gosto desse disco por causa da maturidade da compositora. Eu não preciso provar mais nada a ninguém. Estou dando continuidade à minha obra que é composta por sete discos, mas sete discos de respeito. Hoje eu não quero mais fazer disco só para músicos, só para intelectuais. No Recife, um cara do povo, chegou para mim e disse: ‘‘Dona moça, a senhora é pequenininha, mas sua voz é do tamanho de um armário.’’ Quero atingir a todos.
As ‘‘quebradas’’ nos compassos, uma característica sua, não aparecem tanto neste disco. O que está acontecendo?
Em ‘‘Lá Vem a Baiana’’ quebrei bastante e ‘‘Saudade da Bahia’’ fiz uma leitura muito pessoal. Eu acho assim: não precisa ficar quebrando toda a hora, entende? Eu venho aprendendo muito nos festivais de jazz dos quais tenho participado lá fora... E a coisa é ser econômico... Minha preocupação hoje é com a afinação, com a delicadeza da interpretação.
Essa economia é uma fase nova, Rosa?
Eu já estava com essa consciência e quando participei, certa vez, de um festival de Jazz em Berli, o Hanks Jones (pianista) tocou seu piano e aquilo mexeu comigo... Eu disse a ele: ‘‘Que coisa linda e tão econômica.’’ E ele disse: ‘‘É isso o que você faz com sua música, é com isso que você conquista os estrangeiros.’’ É o tal negócio; eu já sei quebrar então por que tenho que fazer isso o tempo todo?
Você disse que não precisa provar mais nada. Já pararam, inclusive, de chamar você de ‘João Gilberto de saias’?
Graças a Deus!
Graças a Deus?
Graças a Deus porque assim: João é João. Ele foi uma grande escola na minha vida, assim como aprendi muita coisa ouvindo Elis Regina e jazz. Eu acho que é uma responsabilidade muito grande ser comparada a João Gilberto. Acho até meio chinfrim me comparar com o João porque ele é toda uma história, um mito, um mestre. João me ensinou os caminhos, mas eu conquistei meu espaço.
Você tem um trabalho respeitado no exterior e no Brasil. Falta alguma coisa?
Não está faltando nada. Talvez eu quisesse mesmo ter acesso a um número maior de pessoas. Em termos de trabalho, o que eu posso querer é sempre me superar... Posso dizer que encontrei meu caminho musicalmente. Cada vez que você ouvir um trabalho meu pode certeza que vai perceber o cuidado da Rosa Passos em fazer o melhor. A questão musical é uma coisa muito séria e eu levo isso com muita dignidade.

MORADA DO SAMBA
(Rosa Passos/Walmir Palma)
O samba fez de mim sua morada
Chegou, ficou, jamais vai se mudar
Me escolheu pra ser a sua amada
E eu menina louca
para o samba namorar
com sutilezas de teleco-teco
Malandro, invadiu meu coração
Deus me deu a voz
Meu pai o violão
Be-bop o samba me deu de montão
Por isso quando canto assim
bem à vontade
É dom, é dengo, é dim, dindom, dindão
Eu sou a sua casa
dileta namorada
O samba mora no meu coração

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