Curitiba - Intrigado com o tumulto na porta da escola, um adolescente pergunta para uma professora o que está acontecendo. Orgulhosa, ela responde que o colégio vai receber a visita de Lygia Fagundes Telles. ''Ah...'', diz o garoto. ''E quem é ela?'' Para a romancista e contista Lygia Fagundes Telles, imortal da Academia Brasileira de Letras, é realmente uma pena que as crianças e adolescentes de hoje não estejam tão interessados na literatura como deveriam, mas ainda resta uma esperança. Não apenas para o desinteresse dos estudantes, como para as mazelas do País. ''Se não existisse... eu não escrevia mais'', diz.
A escritora esteve em Curitiba esta semana para ministrar uma palestra sobre literatura brasileira e também inaugurar um auditório que ganhou seu nome, no Colégio Decisivo. Falou com a reportagem da Folha sobre o seu trabalho e uma possível classificação para os quase 65 anos de carreira. Lygia foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em outubro de 1985, ocupando a cadeira nº 16. Aos 73 anos, se prepara para escrever o seu próximo livro, logo após ter lançado ''Durante aquele estranho chá'', uma série de textos reunidos por Suênio Campos Lucena. Confira os principais trechos da entrevista que ela deu à Folha2.
A Escrituras Editora lançou este mês o ''Dicionário Crítico das Escritoras Brasileiras'', de Nelly Novaes Coelho. O livro mapeia a produção literária das mulheres nas últimas duas décadas e cita também o seu trabalho. Se a senhora fosse escrever um dicionário, como descreveria sua obra?
Eu comecei muito cedo. Eu acredito em vocação. Vocação do latim ''vocare'', que quer dizer chamado. Eu atendi ao chamado desde cedo. E eu ponho no meu trabalho, no meu vício de escrever, muito amor, muita paixão. Eu trabalho devagar. Sou como tartaruga, lenta. Revejo tudo aquilo que escrevo.
De todas as suas obras, tem algum especial, que poderíamos chamar de xodó?
Eu tenho uma livro que se fosse um filho seria aquele que a mãe agrada mais, dá mais mamadeira. É o ''Noite escura mais eu'' (1995) Eu trouxe para mostrar... (tira da bolsa)
Pois é... a senhora chegou a dizer em uma entrevista de lançamento que esse livro tem uma preocupação estética maior. Como seria isso?
É porque esse livro me deu muito trabalho. Muito trabalho mesmo. Ele foi mais difícil de escrever. Também tem um outro que eu me empenhei muito que é o ''Seminário dos Ratos'' (1977). Eu acho muito importante essa preocupação.
Como ela se manifesta?
Um exemplo é nesse Brasil que é geograficamente tão grande e tão diferente. A palavra escrita consegue reunir os estados, entende? Todos cultural e geograficamente tão diferentes... Mas a palavra escrita é a ponte que o escritor lança para o seu próximo. Eu estendo a ponte e digo: venha. Nesse aspecto, o escritor tem no leitor o seu cúmplice. Ele seduz o seu cúmplice para ficar com ele. Na esperança de que ele, escritor, possa ser a companhia do leitor que está na solidão. Possa atenuar o desespero daquele que está desesperado. Pode ser um sonho isso. Mas até com isso o escritor sonha. Essa escritora louca. Até com isso eu sonho. Poder, quem sabe, desviar alguém do vício através do palavra escrita.
A senhora está escrevendo alguma coisa no momento?
Eu estou me preparando para voltar. Eu escrevi e publiquei dois livros nos últimos anos (''Invenção e Memória'' e ''Durante aquele estranho chá'') que de um certo modo ... não são biográficos... mas de um certo modo eles têm muita coisa minha, da minha biografia. Mas não é exatamente uma biografia porque eu invento. Eu não aguento e invento...
No livro ''Durante aquele estranho chá'' tem uma passagem em que a senhora conta como sentiu a morte de Clarice Lispector. Estava hospedada em um hotel, quando um pássaro entrou no quarto. No dia seguinte, soube da morte de Clarice... Isso é verdade ou invenção?
É verdade... ah que bom que você leu... essa parte é verdade, sim. Ela entrou, a andorinha... louca... louca... Ela entrou no quarto... depois saiu, desvairada...Algumas coisas são verdadeiras, outras eu invento porque não aguento... Ninguém é de ferro...
E uma curiosidade. Por que os seus primeiros livros não constam da sua biografia oficial? O ''Porão e Sobrado'', uma reunião de contos publicado em 1938 e o ''Praia Viva'', publicado seis anos depois... Eles quase nunca são citados...
Quando eu comecei a escrever eu era uma criança louca. Como diria o verso romântico ''uma criança louca sobre o chão de brasa''. Eu comecei muito cedo. Cedo demais. Era menina e juntei o dinheiro que meu pai me dava para comprar pirulito para fazer meu primeiro livro. Isso era uma loucura. Eu não posso aceitar esses primeiros livros. Eu começo a aceitar o meu trabalho a partir de um livro que eu escrevi em 1954 (''Ciranda de Pedra'') que, segundo Antônio Cândido, é um livro que marca, digamos, minha maturidade.
No próximo ano, um de seus romances de grande sucesso, ''As meninas'', faz 30 anos. Vai ter algum edição especial?
A Rocco que é minha editora está programando uma reedição.
Sabe, eu estou muito empenhada em ir até o fim. Às vezes nesse País tão miserável e tão maravilhoso, eu sinto um certo abatimento porque é muito difícil para nós todos aceitarmos um país assim. É por isso que quero continuar minha obra, meu trabalho. Quando eu estava na faculdade de Direito em São Paulo eu repetia sempre a mesma coisa: se o Brasil tivesse mais creches e mais escolas, teria menos hospitais e menos cadeias. Mas há tanto tempo que eu digo isso... e parece que as cadeias se multiplicaram e os hospitais também. E onde estão as creches e as escolas? Então eu fico pensando: eu criei o meu discurso tão antigo e não deu em nada? É claro que deu. Eu sou uma escritora que tem esperança. Um escritor sem esperança é uma contradição. Se eu não tivesse, não escreveria mais.

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