São Paulo - Assim como curte os grandes espaços, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci adapta-se aos reduzidos. "Tudo depende da história", ele disse no ano passado em Cannes, ao apresentar sua adaptação do romance de Niccolò Amanitti, Io e Te. Com o título de "Eu e Você", o filme entra em cartaz hoje no Com-Tour, em Londrina. Passa-se quase todo num apartamento, mais exatamente, no porão em que se refugia o garoto da história. Em dois anos consecutivos em Cannes, 2012 e 2013, Bertolucci confirmou que a noção de espaço é essencial em seu cinema.
Bertolucci não filmava ?há séculos", como diz. Na verdade, foram cerca de dez anos. Uma cirurgia malfeita (de coluna) o confinou na cadeira de rodas. "Eu, que sempre gostei de mexer a câmera, virei um travelling ambulante", ele brinca. Não brincava. Os primeiros anos de cadeirante foram complicados. Ele experimentou revolta, sofrimento. Não ajudava muito seu desgosto com a Itália de Sílvio Berlusconi. Mas, um dia, a vida veio. "Percebi que queria voltar a filmar. E não recusei o convite que eu mesmo me fazia."
Voltou ao tema da juventude, que tanto o atrai - em Antes da Revolução, Beleza Roubada, Os Sonhadores. Um garoto isola-se dentro da própria casa. Finge que partiu em viagem. Surge sua meia-irmã, que tenta se livrar do vício da heroína.
Estabelece-se a tensão. Os dois não se conhecem direito. E existe a questão dos hormônios. Ambos são jovens, belos (interpretados por Jacopo Olmo Antinori e Tea Falco). Rola um clima. O incesto não é estranho no cinema de Bertolucci, basta lembrar La Luna. Mas o incesto, a concretização do desejo físico, não é o tema de Eu e Você. "É sobre dois jovens que aprendem a ser irmãos. Não deixa de ser meu comentário sobre a Itália. Precisamos voltar a ser solidários."
E ele explica sua fascinação pelos jovens - "Acho que a maioria dos meus filmes fala do jovem, de seus medos e desafios. Me interessa muito a energia que o jovem tem. Sempre me interessou, mas agora, confinado, talvez me interesse mais ainda. O jovem precisa aprender a usar sua energia para viver num mundo que não o compreende. Eu, que não sou tão jovem, preciso de uma energia similar para seguir adiante."
Em outros filmes, Bertolucci filmou personagens em ambientes fechados para provocar, no espectador, a sensação de claustrofobia. Aqui, é o contrário. "Não havia outra solução. Para entrar no porão, como fez o personagem, é preciso saber que ali vai acontecer algo importante. O porão deixa de ser uma prisão para ele. Em vez de claustrofobia, ‘claustrofilia’. Ele precisa estar longe do mundo para se sentir livre, ou pelo menos à vontade."

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