EU E O PERSONAGEM
''Victoria tem 90 anos, mas não sabe disso. Às vezes ela acha que tem 30, outras que tem 13. E se convence da idade que tem, do lugar que está. O imaginário de Victoria é tão desenvolvido que desliza entre o tempo e o espaço. Em cena, ela vê o público e pensa que são suas visitas, outras vezes, acha que está no palco na frente de espectadores. Fazer Victoria foi um processo longo, nada fácil. Interpretá-la é maravilhoso, mas criar o espetáculo foi muito difícil. Foi necessário fazer uma busca, integrando elementos, para ter resultados coerentes. E isso levou três ou quatro, só na criação. Vivi de perto a morte do meu pai enquanto criava Victoria. Foi um momento triste e, ao mesmo tempo, cheio de riqueza. Resolvi dar-me como missão trabalhar isso para ajudar a mim e aos outros a confrontar esse momento de maneira positiva. Quando perdemos a capacidade intelectual, quando somos incapazes de pensar de maneira racional, desenvolvemos uma sabedoria afetiva. Passei muito tempo com pessoas idosas que perderam a memória e constatei que quanto mais o lado esquerdo perde a capacidade intelectual, mais o lado direito se fortalece. Vi pessoas que não podiam falar, mas sabiam cantar. Pessoas que são incapazes de reconhecer alguém, mas sabem amar de maneira mais forte. São pessoas que estabelecem um nível de comunicação que é muito forte no fim da vida. Essas são as riquezas a que me refiro no trabalho''.





