Fazer Carmen tem sido para Ana Borges muito mais do que um personagem. ‘‘Descobri a Carmen dentro de mim. Jamais imaginei que isso seria possível’’, confidencia. A atriz recebeu o grande desafio no susto. Teve de substituir a atriz Cláudia Ohana, que se afastou por problemas na garganta.
Ana já participava do elenco fazendo a Nicaela, uma moça meiga e tímida. ‘‘Mas, como sempre tive muita facilidade para decorar e sabia todos os diálogos de cor, aceitei o desafio’’, conta. A substituição foi feita em três dias.
Para construir o personagem novo, Ana não teve muito tempo de ensaios. ‘‘Fui construindo em cima do espetáculo pronto, do jogo com os outros personagens. Não podia fazer o que a Cláudia fazia porque somos completamente diferentes. Fui fazendo a minha Carmen na prática’’, reconhece.
A atriz, 30 anos, estuda canto e dança e já trabalhou em outros musicais. A sensualidade da Carmen foi encontrada em si mesma. ‘‘Existe uma Carmen em toda mulher. Ela é, não só extremamente sedutora, mas também completamente livre. E é essa liberdade que mais me impressiona na personagem. Chegou a mudar a minha maneira de viver, de me relacionar, de lidar com as cobranças e culpas.’’
Compor o personagem foi para Ana uma opção de vida. ‘‘Precisei me dedicar totalmente, porque uma ópera envolve tanta coisa.’’ Sempre quis ser essa atriz ‘completa’, que dança, canta, interpreta e, no caso da Carmen, seduz. É isso que gosto de fazer. É a minha opção como profissional.’’
Mas a Carmen de Ana não está pronta. ‘‘Carmen é exuberante, tem possibilidades infinitas. Ainda temos muito para aprender com ela. A sedução e a liberdade são as duas principais virtudes que pretendo expandir cada vez mais. No início assustei em ter de me expor, mas admito que a sedução é inerente à mulher. Estou aprendendo a pôr para fora.’’
Carmen é livre, selvagem, a forma de falar, de relacionar é intuitiva. ‘‘Isso acaba sendo a maior beleza dela. A pureza da liberdade. Ela não se reprime, e adverte: ‘Eu amo muito mas não por muito tempo.’ E com isso ela chega à morte.’’
O próximo trabalho de Ana deverá ser a ópera ‘‘La Traviata’’, de Giusepi Verdi, com a mesma companhia do diretor Augusto Boal.

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