Comprei um iPod. Acho que todo mundo sabe do que eu estou falando, mas para quem não conhece, eu explico: iPod é um tocador de mp3, ou seja, é um aparelho que substitui o velho discman, com uma tecnologia que permite armazenar centenas de músicas, mesmo sendo quase do tamanho de uma caixinha de fósforos. Entre os vários tipos de iPod, cito aqui dois: o Nano (que tem menu, permitindo que você veja no visor a ordem das músicas) e o Shuffle (que não tem visor, não permitindo que você veja a ordem do que está tocando, e ainda tem a opção shuffle, que basicamente embaralha as músicas, deixando você completamente sem noção da ordem do que vai ouvir). Eu comprei o Shuffle, claro, seduzida pela possiblidade da surpresa, de não saber o que vou ouvir logo depois. Mas eis que um dia em casa, enquanto eu ouvia minhas músicas embaralhadas, meu namorado, proprietário de um iPod igual, me diz estar odiando a sensação de não saber a ordem das músicas. Eu, chocada, perguntei: ''Mas tu não vai te entregar para o shuffle?''. E ele rindo da minha surpresa, disse que aquilo causava agonia horrível.
No dia seguinte recebo um telefonema de uma grande amiga que, sabendo que eu ia viajar a Nova York, queria me fazer uma encomenda: um iPod - mas tinha que ser o Nano, ''que tem menu''.
Engraçado. Para mim a vida sempre foi melhor sem menu. E foi aí que tive um insight: o mundo é dividido entre as pessoas que preferem o iPod Nano e as que se entregam para o Shuflle. Essa escolha diz muito sobre a personalidade da pessoa. Eu adoro surpresas, sou aventureira, adoro não saber o que vem pela frente - sendo assim, é claro que vou me fascinar pela desordem das músicas. Já certas pessoas, como meu namorado e minha amiga, são mais contidas, mais racionais, não gostam dessa sensação de descontrole que muitas vezes a vida nos apresenta - logo, não vão ''comprá-la'' por opção.
No avião, rumo a Nova York, sentindo o frio na barriga que as viagens causam, eu lia o livro da Danuza Leão intitulado ''Quase tudo''. Lia sem muitas expectativas, sabia que era um livro de memórias dela e nada mais. Eis que leio ali uma pessoa livre, leve e solta como eu (ela compraria o iPod Shuffle, pensei). Não, talvez mais do que eu - acho que, em pessoas assim, a idade só intesifica essa percepção de que a vida deve ser levada com leveza, porque, no fim, nada tem essa importância toda que insistimos em dar. E lendo suas deliciosas memórias sobre suas viagens impensadas, paixões avassaladoras, casamentos felizes e infelizes, sua garra enquanto enfrentava as perdas e a surpreendente recuperação da leveza, mesmo após essas suas perdas, eu ria e me emocionava e me lembrava do Kundera - que dizia que a grande questão da vida é achar o equilíbrio entre o peso e a leveza - é do Nietzsche - que criticava Sócrates e os gregos por darem valor exacerbado à racionalidade, esquecendo do nosso lado dionisíaco e caótico. E terminei o livro chegando a uma conclusão parecida com a da Danuza, que na última página, contando uma coisa que fez recentemente sem poderar tanto as consequências (como somos ensinados a fazer), disse: ''Pensar e raciocionar muito pode impedir, às vezes, que a vida aconteça''. E completa com uma das coisas mais bonitas do livro: ''e ali tive até medo de me sentir tão viva''. Não é lindo? Não é isso o melhor da vida, senti-la tão pulsante dentro de nós que chega a dar medo?
O avião entrava em procedimento de pouso. Guardei o livro na bolsa e botei nos ouvidos os fones do meu iPod. Tocava uma música linda da Alicia Keys - e eu não tinha a menor idéia de que viria depois. Também não tinha idéia do que aconteceria em Nova York, após a chegada. Fechei os olhos e me deixei tomar pelo doce momento do não-saber. Me deixando sentir, como Danuza, a doce vertigem de viver.

CAROL TEIXEIRA é escritora e autora dos livros ''Verdades & Mentiras'' e ''De Abismos e Vertigens''

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