Roberto Carlos apresenta hoje em Londrina o show ‘‘Romântico’’, que constitui um pequeno resumo de toda sua carreira. O compositor revisita a Jovem Guarda num pot-pourri com ‘‘Parei na Contramão’’, ‘‘Eu Sou Terrível’’, ‘‘O Calhambeque’’, ‘‘Por Isso eu Corro Demais’’ e ‘‘As Curvas da Estrada de Santos’’, entre outras.
‘‘Romântico’’, no entanto, não deixa de destacar ‘‘Amada Amante’’, ‘‘Detalhes’’, ‘‘Outra Vez’’, ‘‘Emoções’’ e ‘‘Cavalgada’’. O espetáculo ressalta ainda a temática religiosa, frequente em toda a obra do compositor, revisitada recentemente em novo disco, e encerra com ‘‘Nossa Senhora’’ e ‘‘Jesus Cristo’’. Aos 40 anos de carreira, Roberto Carlos abandonou a ousadia para se aconchegar em antigos sucessos, obrigatórios em seus espetáculos e adorados pelo público.
A consagração do cantor e compositor contou com um problema técnico entre os clubes de futebol e emissoras de TV na década de 60. Os times proibiram a cobertura do Campeonato Paulista. Para preencher o buraco na programação da tarde, a TV Record de São Paulo encaixou uma atração ousada. ‘‘Jovem Guarda’’ trazia uma linguagem diferente, nunca utilizada na televisão. O programa popularizou o rock e inaugurou a música pop no Brasil, tornando-se uma febre entre a juventude. No comando, estava um rapaz de Cachoeiro do Itapemirim.
Aos 24 anos, Roberto Carlos já tinha currículo. Ex-The Esputiniks e The Snacks, estava numa carreira solo ascendente, consequência dos discos ‘‘Louco por Voc꒒, ‘‘Splish Splash’’ e ‘‘É Proibido Fumar’’. À sua volta circulavam ídolos como Erasmo Carlos, Wanderléia, Martinha, Eduardo Araújo, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros.
Enquanto incendiava o público adolescente, a Jovem Guarda atraía críticos. No âmbito musical da época, quando a Bossa Nova se encaminhava para o engajamento político, o rock tupiniquim recebia acusações de fechar os olhos para a situação nacional, que adentrava os anos de chumbo da ditadura militar.
No meio desta queda-de-braço, Caetano Veloso enxergou nas guitarras a revitalização da Música Brasileira. A Tropicália levantou poeira resgatando a atropofagia modernista, ajudando a acomodar a guitarra elétrica entre composições nacionais.
É importante lembrar que a Jovem Guarda não se insurgiu necessariamente contra a Bossa Nova. Houve troca de farpas, mas os roqueiros não tinham interesse primordial de confrontar Tom Jobim e companhia. A Jovem Guarda parecia mais uma grande diversão do que um movimento estruturado. Mas guitarras, cabelos compridos, roupas extravagantes, minissaias, histeria e linguagem própria provocaram reações na sociedade da época.
O conservadorismo era tanto que, em um programa de TV - ‘‘Quem Tem Medo da Verdade?’’ - da época, Roberto Carlos foi acusado de usar roupas afeminadas. Pior, feitas por mulheres - fato que um dos jurados considerou ofensivo. A resposta foi direta: ‘‘Não sei se o senhor pode me garantir que toda a roupa que o senhor está usando neste momento foi confeccionada por homens. Isto não faz sentido.’’
A aventura começou quatro anos depois da mudança de Cachoeiro do Itapemirim para Niterói. Já em 1956, Roberto Carlos andava com uma turma ‘‘da pesada’’, que incluía Erasmo Carlos e Tim Maia, com quem formou o The Snacks. No final da década, pegou carona com a Bossa Nova e gravou um 78 rotações cantando no estilo de João Gilberto. O disco não repercutiu.
Entre os hits da Jovem Guarda, Roberto e Erasmo revelaram talento para composições que ultrapassaram as letras ingênuas da época e amadureceram quando Roberto embarcou numa fase exclusivamente romântica, no começo dos anos 70. O Tremendão continuou se aventurando pelo rock por alguns anos.
Sucessos como ‘‘Eu te Darei o Céu’’, ‘‘A Namoradinha de um Amigo Meu’’, ‘‘É Proibido Fumar’’ e ‘‘Eu sou Terrível’’ foram aos poucos substituídos por ‘‘As Canções que Você Fez Para Mim’’, ‘‘Detalhes’’ e ‘‘Sentado À Beira do Caminho’’. A dupla de compositores atingia a maioridade. Durante a transição, Roberto Carlos teve um flerte com o funk e o soul, influenciado por James Brown.
No romantismo, Roberto abandonou paqueras juvenis para tratar de relacionamentos aprofundados, seus benefícios e mazelas. Os beijos ingênuos se transformaram em amor físico e as letras passaram a narrar desejos - como em ‘‘Proposta’’ - e seduções cotidianas - como em ‘‘Café da Manh㒒, de 1978. Nesse contexto, concentram-se também o abandono e a traição.
Essa temática, associada à liberdade sexual consequente dos anos 60 e da popularização da pílula anticoncepcional, constituía um discurso poderoso na época. Nos anos 80, porém, essa conotação perdeu o caráter contundente.
Roberto Carlos se acomodou gradativamente, apresentando composições diluídas que já não emplacam com a mesma força, afastadas da criatividade de tempos atrás. Ao mesmo tempo, abordou temas ecológicos ou que contrastam características da estética feminina. Sua popularidade, no entanto, se mantém. Cada novo trabalho alcança uma tiragem de 1,5 milhão de cópias. Roberto Carlos já vendeu mais de 70 milhões de discos.

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