Renato Russo sempre foi um leitor voraz. Tinha, entre seus planos, tornar-se escritor depois dos 60 anos. Mal sabia que, com sua morte, ele próprio se tornaria ‘‘tema’’ de vários livros.
Só nesta temporada, três títulos chegaram ao público alimentando o culto em torno da vida e obra do ex-líder da Legião Urbana. O primeiro volume, ‘‘Renato Russo de A a Z’’, foi lançado no começo do ano reunindo frases, depoimentos e entrevistas extraídos de jornais e revistas.
Agora é a vez da biografia ‘‘O Trovador Solitário’’ (Relume Dumará), de autoria do jornalista Arthur Dapieve, e do ensaio ‘‘A Nossa Geração Perdida’’ (Univali), do também jornalista Cristiano Escobar. Mais deve vir por aí, afinal a idolatria não para de crescer intensificando manifestações oportunas e oportunistas por todo o país.
‘‘O Trovador Solitário’’ narra a trajetória do compositor de sua infância no Rio de Janeiro até a morte por decorrência da Aids no dia 11 de outubro de 1996. Dapieve, que é autor do livro ‘‘Brock – O Rock Brasileiro dos Anos 80’’, passa a limpo episódios de domínio público, mas evita esmiuçar histórias até hoje mal contadas como a controversa questão envolvendo seu filho Giuliano.
‘‘Sobre isso eu não falo’’ – vivia repetindo Russo. A versão oficial diz que o menino é filho de Renato e uma fã. Mas há quem fale em adoção. O livro foge do mexerico, mas informa que quando a criança completou 1 ano Renato preferiu deixá-la aos cuidados de sua irmã e de seus pais. ‘‘O cantor sentia muita saudade do filho mas achava importante, dada sua vida crescentemente desregrada, que ele contasse com a segurança de Brasília’’ – escreve o autor.
Outras passagens marcantes do livro falam dos primórdios da banda, as desavenças com os companheiros durante as gravações dos discos, a paixão pelos livros e pelo cinema, a suposta tentativa de suicídio, a decisão de assumir a condição de homossexual, as crises depressivas, o tumultuado show em 1988 que teve um saldo de 385 feridos e vários ônibus depredados e a descoberta de que era portador do vírus HIV.
A respeito desse último episódio, o autor lembra que Renato ‘‘achou que estava tudo acabado, já naquele momento, e começou a dar instruções para o empresário encaminhar as coisas após a sua morte’’. No capítulo final, que narra os últimos dias de Renato no leito, Dapieve arranca emoção do leitor ao contar a última visita feita ao cantor pelo amigo e guitarrista Dado Villa-Lobos.
Bem diferente, ‘‘A Nossa Geração Perdida’’ deixa de lado a vida de Renato Russo para focalizar sua obra e a partir daí examinar a sociedade contemporânea discutindo conceitos como pós-utopia e pós-modernidade. Na abordagem, o autor apropria-se das letras da Legião para pintar um retrato da geração nascida sob o regime militar (1964-1985). Para ele, as músicas da banda traduzem o ‘‘imaginário da época’’.
‘‘O Trovador Solitário’’. De Arthur Dapieve. Editora Relume Dumará. Tel. (21) 564-6869.
‘‘A Nossa Geração Perdida’’. De Cristiano Escobar Maia. Editora Univali. Tel. (47) 341-7645

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