Eternamente Elisete
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 1998
Mauro Dias Agência Estado 
ReproduçãoElisete Cardoso: considerada a melhor cantora de MPB, ela viveu e cantou um compasso à frente de seu tempoElisete Cardoso (1920-1990) gravou 20 músicas, em 10 discos de 78 rotações, pela gravadora Todamérica, entre 1950 e 1952. O lado B do primeiro disco era a Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula, que seria seu prefixo musical para sempre. No lado A estava o samba Complexo, de Wilson Batista e Magno de Oliveira. Consta que Wilson, já famoso, moveu seus pauzinhos para que Complexo estivesse no lado A - era regra: o sucesso de um disco estava no lado A. Não foi assim, dessa vez. A estreante Elisete esgarçava a primeira das muitas regras que romperia enquanto cantasse.
Das 20 músicas, 12 estão reunidas no CD Elizeth Cardoso, lançamento da gravadora RGE, que comprou o acervo da Todamérica, fechada há muitos anos. É a primeira vez que as músicas saem no formato digital. Para título do disco, a RGE adotou uma das várias grafias sob as quais o nome da cantora aparecia em jornais, revistas e até mesmo nas capas dos discos (Elizeth, Elizete, Elizethe, Cardoso, Cardozo). Elisete Cardoso, escrito assim, é a forma, ortograficamente moderna, adotada pelo biógrafo dela, Sérgio Cabral.
O 78 rotações com Canção de Amor e Complexo não foi o primeiro que Elisete gravou. Naquele mesmo ano de 1950, meses antes, para a gravadora Star (depois Copacabana), ela havia registrado Braços Vazios, de Acir Alves e Edgard G. Alves, e Mensageiro da Saudade, de Ataulfo Alves e J. Batista. Mas o disco atrasou, Elisete foi contratada pela Todamérica e Canção de Amor acabou valendo como estréia.
Minha vida era bela e calma até que você entrou pela porrrta do meu coração, canta Elisete em Complexo, puxando os erres fricativos que seriam sua marca registrada - nenhuma outra cantora usou aqueles erres de forma tão classuda (em geral, a pronúncia assim leva o intérprete ao ridículo). Acho que eu imitava os locutores de rádio, que puxavam os erres, disse uma vez a carioquíssima Elisete, nascida em 1920, em São Francisco Xavier, e alfabetizada na Praça 11, perto de onde morava Tia Ciata, em cujo terreiro nascera o samba carioca.
Ela já estava para completar 30 anos quando estreou no disco. No entanto, cantava desde cedo. Aos 5 anos subiu ao palco da casa noturna Kananga do Japão para cantar Zizinha, na qualidade de madrinha da festa do padroeiro da casa, São Jorge. Eu era muito exibida, dizia Elisete, como conta o biógrafo Sérgio Cabral. Por ser deveras conhecida/ Palavra, eu andava aborrecida/ Em qualquer lugar/Quando a passear/ Sou muito perseguida - começava a letra da marcha Zizinha, de José Francisco de Freitas, Carlos Bitencourt e Cardoso de Menezes, sucesso do carnaval de 1926. Nada que se esperasse ouvir de uma criança de 5 anos.
Elisete dominaria o palco doméstico - o pai era violonista amador - aos 8 anos, seria ouvida por Jacó do Bandolim aos 15 (Em 18 de julho de 1936 fui a uma festinha, disse o músico, ao microfone, quando se apresentou com Elisete e o Zimbo Trio no Teatro Municipal do Rio, em 1968, e houve uma pessoa que conheci, uma menina, e a acompanhei, fiquei entusiasmado e a encaminhei à extinta Rádio Guanabara: Elisete Cardoso), mas só quando já ia completar 30 anos conseguiu gravar o primeiro disco.
Antes disso foi um pouco de tudo - cabeleireira, operária de fábrica, balconista, táxi-girl, passista, crooner, cantora de circo ao lado de Grande Otelo; o sucesso de Canção de Amor levou-a ao cinema (em Coração Materno, ao lado de Vicente Celestino). Seu segundo grande sucesso, Dá-me Tuas Mãos (Erasmo Silva e Jorge Castro) - também no CD -, tinha arranjo do maestro Nicolino Cópia, o fabuloso flautista Copinha. Em Nosso Amor, Nossa Comédia (Erasmo Silva e Adolar Costa), outra do CD, gravação original de 1952, Elisete estava acompanhada pelo quinteto de Radamés Gnattali - Radamés, ao piano, Chiquinho do Acordeão, Zé Menezes, ao violão, Vital, ao contrabaixo e Luciano Perrone, à bateria, formação acrescida do clarinete de Abel Ferreira.
O melhor para a melhor voz. Se Elisete, em 1968, no show mencionado acima, uniu pioneiramente a bossa nova instrumental do Zimbo Trio ao choro tradicional de Jacó do Bandolim, foi também quem primeiro gravou Tom Jobim e Vinícius de Morais e quem estreou cantando sobre o violão sincopado de João Gilberto, no histórico disco Canção do Amor Demais, de 1958, lançamento oficial da bossa.
A Enluarada, a Divina, a Magnífica - Elisete acumulou superlativos inapeláveis, foi perfeita no samba, na canção, na bossa, nos boleros iniciais, cantando Cartola ou Villa-Lobos com a mesma distinção, sobriedade, intimidade e classe, como ninguém antes ou depois dela. Certamente a melhor cantora popular brasileira de todos os tempos, Elisete viveu e cantou um compasso à frente de seu tempo. Esse lançamento ajuda a comprová-lo.


