Ao longo de seus 31 anos de carreira, Rita Lee flertou com o experimentalismo e a psicodelia nos Mutantes, se entregou ao rock na década de 70 com a banda Tutti Frutti e conheceu o sucesso em massa com canções em estilo pop, na parceira com o marido Roberto de Carvalho. Seus admiradores vêm das mais variadas faixas etárias: são crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Mulher pioneira do rock brasileiro, ela não se contentou apenas com a música e desenvolveu uma versatilidade contorcionista: já atuou em filmes nacionais, teve um programa de televisão onde interpretava vários personagens, um programa de rádio e até hoje mantém uma intensa atividade em prol dos animais e da ecologia. ‘‘A Rita Lee é meu personagem mais conhecido’’, diz ela, referindo-se à miscelânea de facetas que ‘‘encarna’’ na presença de amigos e em seus shows, como a menina Gungun, de 3 anos, e a solteirona Regina Célia.
No momento, Rita ainda está fazendo shows do álbum ‘‘Ando Meio Desleegado’’, o acústico promovido pela MTV. Em entrevista exclusiva por e-mail, ela falou sobre seu estado de espírito atual, apreensões, vida pessoal e projetos futuros, com o senso de humor a caracteriza.
Como você se sente com 51 anos? É muito diferente de quando tinha seus vinte e poucos anos?
Quando tiver meus 151 anos de idade com certeza vou me lembrar dos anos 90 com muito carinho... Minha saúde física-mental-espiritual está bacana, feiticeiras não encontram problemas no envelhecimento da matéria, ao contrário. A vida fica mais interessante sendo uma sábia senhora do que uma jovem burrinha. Não tenho crise de saudosismo, nem entro na miragem da juventude eterna: panela velha, além de fazer boa comida não pega fogo.
Juventude é estado de espírito?
Juventude é quando você tem 51 anos num corpinho de 17 e uma cabeça de 2000. Tem gente que tem 17 anos num corpinho de 51 e uma cabeça de vento.
Por que você não concede mais entrevistas ao vivo?
Dou entrevistas ao vivo quando estou divulgando o show pelas cidades, mas quando estou na minha ‘‘bat-caverna’’ aqui em Sampa, prefiro fazer tudo por e-mail que é muito mais prático e confortável para todos. Evito aquele velho transtorno de marcar encontro, enfrentar trânsito, passar batom, ligar gravador ou bloquinhos de anotações onde facilmente as palavras são distorcidas. Nada do tipo ‘‘estrelismo neurótico’’, apenas uma modernidade.
Seu site oficial (www.ritalee.com.br) é muito interessante. Você teve participação na elaboração das idéias? Qual é a sua opinião sobre a Internet como meio de comunicação?
Quem articulou e realizou o site foi Roberto, apenas sugeri algumas idéias. A Internet é uma mão na roda, podemos visitar o planeta todinho sem sair de casa! Estamos engatinhando ainda, acredito que cada vez mais a utilização da Net vai entrar em nossas vidas, como uma escova de dente, não dá para viver sem.
Você foi a grande pioneira dos álbuns e shows acústicos no Brasil, com o Bossa & Roll, de 1990. Como você se sente quando a crítica a acusa de ter feito o novo disco (‘‘Ando Meio Desleegado’’) pensando apenas no dinheiro?
Se fosse ligar para cobranças nunca pagaria minhas contas de luz. Desde os tempos de Flávio Cavalcanti dou trabalho à crítica. Hoje estou completamente blasé em relação a ela, tenho até amigos no meio com quem me correspondo e assim sendo eles fazem o trabalho deles e eu o meu. A crítica sempre há de ladrar e a caravana dos artistas sempre há de passar. Os críticos não chegam a atrapalhar o sucesso de ninguém, o trabalho deles é espinafrar. E para quem já encarou a censura de uma ditadura como eu, tem que dar graças a Deus e tocar o barquinho em frente. Sobre ‘‘Acústicos’’, é um projeto que deu certo por vários motivos. Em primeiro lugar, é uma oportunidade para um público jovem conhecer melhor o resumo da ópera de certos artistas ilustres, que ultimamente não encontravam brecha nos meios de comunicação por conta dos jabás e dos clonados que assolam as paradas de sucesso. Também é uma oportunidade para os artistas fazerem um trabalho com uma boa produção e divulgação em CDs e vídeos de alta qualidade. Além disso, se rolar grana ninguém vai chorar, afinal não se trata de propinas ou piratarias. As grandes vendagens dos acústicos se devem a todos esses fatores que mencionei, ninguém engana o povo assim tão descaradamente. Quando a peixaria vende sereias, os lambaris reclamam.
O ‘‘Acústico’’ está tendo a receptividade que você esperava?
Na verdade não costumo esperar nada de nada, o que vier é lucro. Este ‘‘Acústico’’ só tem me dado alegrias, é um trabalho de reconquistas e afirmações. O privilégio de viver de música no Brasil por 31 anos é um fato que agradeço a Deus todos os dias.
Você acha que já realizou seus sonhos ou há muito por fazer?
Ainda não fiz nem um décimo do que pretendo nesta vida... Paralelamente à música, tenho vários motivos para continuar viva, um deles é lutar pelo respeito a todas as formas de vida. Acredito que a raça humana não vai evoluir enquanto houver gente destruindo nossa nave mãe Terra. No momento, estou envolvida na consciência planetária pelos direitos dos animais, desde frigoríficos até as humilhações e torturas às quais eles são submetidos em farras do boi, vaquejadas, rodeios, circos, etc. Muita gente condena minha preocupação com esses assuntos num mundo onde há crianças jogadas em latas de lixo, mas eu acredito que todas as causas nobres estão diretamente ligadas umas às outras. Defendo os animais em nome da educação e de um futuro mais justo para as gerações que virão. É lamentável ensinar às crianças que os animais são meros objetos de uso. Na China, por exemplo, está havendo um massacre hediondo de ursos, que são tratados com requintes de nazismo, enjaulados desde o nascimento em minúsculos lugares e sofrendo dores absurdas com equipamentos pelo corpo todo sugando literalmente suas vísceras, tudo para extrair deles substâncias utilizadas em produtos de beleza! Não tenho sangue de barata para ficar de braços cruzados vendo este tipo de crime. E que papo é esse de sacrificar pitbulls quando os donos desses animais são os grandes responsáveis pela falta de adestramento correto?
O que você acha do estado atual de Sampa? Quais são seus programas favoritos na cidade?
A mais completa tradução de Sampa sem dúvida é o Rio Tietê, ou seja, uma m... só. Graças aos políticos que São Paulo elege, estamos numa situação de escândalos para todos os lados, não há luz no fundo do túnel. Quando não estou na estrada fazendo shows, prefiro mesmo ficar em casa. Encontro sempre um tempo para minhas meditações e leituras: são delas que eu tiro energia para segurar a peteca no ar. Odeio shoppings e academias, não vou a restaurantes nem cinemas, enfrentar o caótico trânsito só em caso de incêndio.
O que você costuma ouvir quando está em casa?
Para dar uma dinâmica ao meu ouvido, em casa gosto de música clássica, new age e lounge. Também recebo muita fita demo de uma garotada que ainda não apareceu e garanto que tem muita gente boa por aí fazendo um trabalho de qualidade, sem sequer uma bundinha rebolando...
Como é o seu relacionamento com seus filhos? Você se considera uma mãe liberal, ou do tipo cheia de regras?
Nem lá nem cá, crio meus filhos com muita informação para que tenham livre arbítrio e arquem com as consequências de suas escolhas.
Além do Beto, os outros tocam instrumentos ou cantam?
Meus três garotos são naturalmente musicais, não houve qualquer tipo de pressão, a simples convivência diária com música fez com que tivessem uma afinidade bastante criativa nesta área. O Beto, de 22 anos, tem dado uma canja para mim nos shows como guitarrista e faz parte da banda Larika, que já tem proposta de uma gravadora. João, de 20 anos, faz administração e usa a música mais como hobby, apesar de ter um ouvido genial para tocar e cantar. Antonio, de 18 anos, demonstra que pretende seguir a carreira musical e já decidiu estudar em Londres.
O casamento trouxe um equilíbrio interior maior para você?
Faz 23 anos que estou casada com Roberto, não me lembro muito da minha vida sem a sua presença. Ele é uma pessoa extremamente elegante e sensível, um estudioso, um grande maestro e meu melhor parceiro e amigo. Sou uma mulher privilegiada por tê-lo perto durante quase metade da minha existência.
Qual sua opinião sobre a nova legião que cultua os Mutantes, que tem integrantes como Beck e o falecido Kurt Cobain?
Tenho dado entrevistas por e-mail para diversos jornais e revistas estrangeiros sobre Mutantes e Tropicalismo, parece que os gringos descobriram o caminho das Índias só agora, bem, antes tarde do que mais tarde ainda... O selo de David Byrne, Luaka Bop, está lançando uma compilação dos Mutantes, além de um disco inédito gravado em Paris em 1970, chamado Technicolor, que considero o melhor trabalho dos ‘‘Mutas’’. Há versões engraçadíssimas em inglês, francês e portunhol num ‘‘best’’ das nossas músicas. A master deste disco ficou esquecida em algum armário por 25 anos, parece que agora a Polygram também pretende lançá-lo no Brasil.

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