Ela, sozinha, representa todas as mulheres do mundo. Já era assim, com certo exagero, que muitos contemporâneos viam Leila Diniz. Morta há 30 anos, num acidente de avião, a atriz carioca desafiou os puritanos marcando toda uma geração com suas atitudes involuntariamente libertárias. Leila foi a musa tropical, a feminista sem carteirinha.
Apesar das mudanças comportamentais que a passagem das décadas impôs a vários tabus, quebrados à época por ela, o mito sobrevive. Um ciclo em sua homenagem foi realizado recentemente em São Paulo e a previsão é que chegue ao Rio de Janeiro e outras capitais no segundo semestre. Durante o evento, organizado pela Heco Produções, foi lançado o livro ‘‘Leila Diniz – Filmes, Homenagens, Histórias’’, já com a primeira tiragem esgotada.
O volume reúne 53 textos de personalidades culturais, fotos inéditas, além de depoimentos de amigos e da própria atriz incluindo sua célebre entrevista ao jornal Pasquim. Por sua vida louca, como se costumava dizer, Leila dividia opiniões. Uns a acolhiam como a encarnação da liberdade, outros a acusavam de alienada e ainda outros tantos a demonizavam como imoral. Certa vez, foi humilhada no programa ‘‘Quem Tem Medo da Verdade?’’, apresentado por Flávio Cavalcanti na TV Record.
Constrangida diante das câmeras e do auditório, Leila aparecia em lágrimas enquanto os convidados atacavam sua índole colocando em dúvida suas virtudes como futura mãe. Os mais hostis a tratavam como uma ameaça à segurança nacional. A entrevista ao Pasquim, publicada no final de 1969, foi a gota d’água. Foi uma das responsáveis pela criação da lenda em torno da estrela. Suas declarações aparecem pontuadas por 269 asteriscos em substituição aos palavrões.
Com a língua solta, ela fala de virgindade, amor livre e de seus inúmeros namorados. Logo depois, indignado, o ministro da Justiça Alfredo Buzaid decreta a censura prévia no Brasil. Leila seria comentário geral também ao ser fotografada grávida na praia, exibindo sua enorme barriga em um maiô de duas peças. A foto escandalizou as hostes recatadas do país. O comum, na época, era a mulher grávida esconder sua sexualidade.
A posteridade foi alcançada pela atriz ainda pelo filme ‘‘Todas as Mulheres do Mundo’’, rodado em 1966 e dirigido por Domingos de Oliveira, com quem fora casada durante três anos. O longa, aliás, acaba de sair em DVD. Saudado como uma declaração de amor à atriz, projetou-a para além da televisão, na qual atuara na telenovela ‘‘Sheik de Agadir’’, de Glória Magadan, exibida com sucesso pela Globo.
O filme, uma comédia, mostra a boa vida da classe média carioca de então. Foi quase que inteiramente ambientado em Copacabana, Ipanema e Arpoador. Recebeu o epíteto de ‘‘escapista’’ pelos seguidores do Cinema Novo, hegemônico na época. Hoje, críticos respeitáveis o incluem na galeria dos 10 melhores longas produzidos no Brasil. Leila ilumina a tela ao lado de Paulo José, Joana Fomm, Flavio Migliaccio e Fauzi Arap.
A atriz apareceria ainda em mais 13 filmes, além de ser homenageada em outros três. De temperamento solar, viveu intensamente incomodando conservadores de todas as latitudes em plena ditadura militar. Ao morrer num desastre de avião, no dia 14 de junho de 1971, provocou comoção nacional. O jato da Japan Airlines explodiu pouco antes de aterrissar em Nova Dhéli, na Índia. Ela havia participado de um festival de cinema em Adelaide, na Austrália. Tinha apenas 27 anos.

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