A Quilombo dos Palmares está de pé, quase pronta para entrar na avenida, no próximo domingo. E vem com disposição para encarar de frente as agremiações favoritas de Londrina. Quem afirma é Nilza Garcia Ferreira, que assumiu o comando da mais antiga escola de samba da cidade após a morte de seu marido, José Alves Ferreira, no final do ano passado.
Tico, como era conhecido, ocupava a presidência da escola desde 1990. Morreu aos 55 anos, vítima de parada cardíaca. A perda abalou a mulher, os três filhos e o espírito carnavalesco de toda a escola. Muitos duvidaram da permanência de suas atividades, que dependiam em grande parte da garra e dedicação do presidente.
''Havia um boato de que não sairíamos este ano, mas a gente nunca parou. O povo quilombeiro é tinhoso. Vou tocar a escola até morrer, para gosto de uns e desgosto de outros, mesmo porque nem Deus agradou a todo mundo'', diz Nilza. O ex-presidente será homenageado no samba-enredo ''Tico, um Coração Quilombeiro'', de autoria de Reinaldo Barbosa, o MC Rei, compositor ligado à comunidade hip hop local.
Quem assina a melodia é Joaquim Braga. A interpretação ficará a cargo da cantora Indayana Oliveira e de Vanderson Morais com apoio das vozes de Suelen, Fabinho e André. Fundada em 1985, na região dos Cinco Conjuntos (Zona Norte), a Quilombo dos Palmares conquistou oito carnavais no Grupo A, sendo que cinco títulos foram consecutivos, dois alternados e um dividido com a Gaviões Londrinenses.
Na defesa das cores verde e rosa (como a famosa Mangueira), a escola irá se apresentar este ano com 350 componentes ao longo das alas, oito das quais prestarão tributo a Tico. Membros da escola vestirão luto e anjos estarão presentes ao lado de um grande busto com a imagem do ex-presidente no carro abre-alas.
A bateria, um dos pontos fortes da agremiação, terá 45 ritmistas sob direção de Henrique Galdino. ''Não estamos levando quantidade, mas qualidade'', salienta Nilza. ''Todo componente tem sua importância, mas a bateria é o coração da escola. Sem uma boa bateria, não adianta caprichar na decoração. Carnaval não é só coisa bonita. Tem que mostrar um bom conjunto''. Ela informa que procurou reforçar algumas alas. ''Nunca havíamos perdido em evolução e harmonia, mas no ano passado perdemos pontos nesses quesitos. Ficamos em terceiro lugar por décimos. Vamos corrigir isso'', avisa.
A comissão de frente contará com a presença do professor de dança Guto. O mestre-sala será Ivo Batista de Oliveira que, de acordo com a nova presidente, formou praticamente todas as porta-bandeiras de Londrina. ''Todas as meninas passaram pelas mãos dele'', ressalta ela. Uma das pupilas do mestre-sala, Cristiane de Lima Augusto, será pela quinta vez a porta-bandeira da Quilombos.
Muitas pessoas não ligadas ao dia-a-dia da agremiação estão se integrando ao desfile. MC Rei organizou uma ala com 15 jovens participantes do movimento hip hop. São alunos da ''Oficina de Rima'', que ele coordena na Zona Leste da cidade através do projeto ''Expressão Londrina Hip Hop'', amparado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Uma outra ala de capoeiristas também irá para a avenida.
A escola londrinense volta a trabalhar de forma artesanal valorizando artistas locais em seu desfile, diferente de 2006, quando a orientação foi seguir escolas rivais na tendência de buscar parcerias e intercâmbios com agremiações do Rio e São Paulo. A iniciativa do ano passado resultou na ''importação'' de alegorias e até do samba-enredo, composto por músicos da escola de samba Unidos de São Lucas, do grupo de acesso do Carnaval paulistano.
Para este ano, porém, tudo foi concebido com a marca de pés-vermelhos. ''Não busquei nada fora'', assinala Nilza. ''Nossa equipe fez tudo, trabalhando com reciclagem e imaginação. Contamos com bons artistas para decorar os carros e bons designers para criar as fantasias. Não estamos saindo apenas para homenagear o Tico, mas para disputar de igual para igual nas cabeças''.
O último título conquistado pela escola foi em 2001. Há cinco anos consecutivos, patina em terceiro lugar. Seus integrantes sonham com a vitória outra vez.

SAMBA-ENREDO

TICO, UM CORAÇÃO QUILOMBEIRO

‘‘Hoje na avenida eu vou disfarçar
Vestir minha tristeza de alegria, pra ninguém notar
Mostra minha escola tudo que aprendeu
A Quilombo chora, mas traz na memória
O filho que perdeu...
(e hoje)
Hoje eu sei que o céu vai se alegrar
Os anjos vestindo verde e rosa pra me ver passar
Te trago pra avenida, pra mostrar ao mundo inteiro
Homem Carnaval, quanto emoção
Grande Tico Quilombeiro
Deixa como herança, garra e empolgação
Chega e arrebenta bateria, treme meu Cincão
Palmares abraça o seu coração
E pra relembrar a nossa história,
Relembrar as nossas glórias
Cante este refrão
Oiá, Yê, Yê Mamãe Oxum
Faz o meu povo sambar
Odoyá mãe Yemanjá
Oi, dá licença minha escola vai passar
E hoje...

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