Esvaziamentos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de julho de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Em seu clássico Discurso sobre o nada, de 1949, o compositor, inventor, músico e artista norte-americano John Cage surpreendeu a todos os presentes de uma conferência sobre música contemporânea erudita dizendo que eu estou aqui e não tenho nada a dizer e o que estou dizendo isto é poesia. Depois que tudo já havia sido construído e destruído na melodia, harmonia e na composição, só restava então se calar e ouvir o silêncio. O silêncio é grávido de sons, ele disse.
Para a mente ocidental parece absurdo aceitar o espaço vazio, a página em branco, a contemplação. O Nirvana, a iluminação de que nos fala o Budismo, para nossa mentalidade racionalista, determinista, representa a própria morte, porque sem o apego às coisas materiais e utilitárias não sabemos dar conta do vazio que há em nós mesmos. Construímos ao longo dos séculos nosso mundo em torno de aparências visíveis e agora, sobretudo, somos obrigados a conviver com uma enxurrada de imagens, informações e idéias que acabam se dissipando para lugar algum, onde tudo se transforma em coisas banais.
Já em 1965, a artista Mira Schendel detectava essa questão criando monotipias em que a linha, mínima, ocupava um lugar que valorizava o espaço branco do papel de arroz, translúcido, aproximando-se muito da estética oriental. Em um dos trabalhos desta série está inscrito nel vuoto del mondo (no vazio do mundo). É lá neste lugar anônimo e, por outro lado onipresente, que a artista encontra sua compreensão do universo.
Se essa idéia de se dissipar no anonimato como coloca a crítica Sonia Salstein, em texto de catálogo de 1996 é uma maneira de revelar o vazio, se revelando, outras estratégias se pautam levando em consideração a excessiva carga informacional a que somos expostos o tempo todo. Fazer buracos no chão da galeria, do museu ou da paisagem em lugar de colocar obras em exposição, encher a boca com pedaços de material espumoso até não caber mais e continuar colocando indefinidamente, inchar as formas até deformá-las, etc., foram algumas das maneiras encontradas pelos artistas para se fazerem ouvidos em meio a tantos ruídos.
Desenvolvendo seu trabalho em Londrina, a artista e professora Fernanda Magalhães cria uma obra apelando justamente para a metáfora do excesso fazendo A reprodução da mulher gorda nua na fotografia, particularmente em uma série denominada Andróide Obesidade Mórbida, onde joga com um interessante paradoxo entre a história da arte e sua história pessoal, entre volume e superfície, conteúdo e formas vazias. Recortando imagens fotográficas de tamanho natural, deixa aparecer apenas as bordas do corpo de uma mulher obesa, como se a retirada do contorno em volta do corpo adicionasse ainda mais peso àquela composição, ocupando um lugar que o torna... vazio.
E cheios de vazios, sem nada ter a dizer ou a acrescentar, vamos dizendo, acrescentando idéias, poesias e informações ao mundo.
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