Ana Paula Araújo: "Sim, estupro é crime, mas é algo tão comum e normalizado em nosso país, que quem sofre acha que é culpado por ele"
Ana Paula Araújo: "Sim, estupro é crime, mas é algo tão comum e normalizado em nosso país, que quem sofre acha que é culpado por ele" | Foto: Leo Aversa/ Divulgação

“Estupro é o único crime em que a vítima é que sente culpa e vergonha. Sim, é crime, mas é algo tão comum e normalizado em nosso país, que quem sofre acha que é culpado por ele, uma vez que a sociedade em si também alimenta essa mentalidade.”

É com essas palavras que a jornalista Ana Paula Araújo abre seu livro “Abuso – A Cultura do Estupro no Brasil” que acaba de ser lançado pela editora Globo. A obra oferece subsídios para entender um triste assunto cada vez mais polarizado nas redes sociais num país onde ocorre um estupro a cada 11 minutos (segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2019). E apenas 10% desses abusos chegam a ser denunciados numa delegacia de polícia. Segundo a autora, 90% das vítimas não falam nada, “seja por medo, pela vontade de esquecer, pela dificuldade em entender e aceitar que houve estupro, por descrédito e na eficiência da lei, mas, principalmente, pela culpa e ela vergonha”.

Ana Paula Araújo: "Sim, estupro é crime, mas é algo tão comum e normalizado em nosso país, que quem sofre acha que é culpado por ele"
Ana Paula Araújo: "Sim, estupro é crime, mas é algo tão comum e normalizado em nosso país, que quem sofre acha que é culpado por ele" | Foto: Leo Aversa/ Divulgação

O livro-reportagem é fruto de quatro anos de pesquisa. Ana Paula Araújo realizou mais de 100 entrevistas em várias regiões do país. Entrevistou vítimas, criminosos, delegados, presidiários, menores infratores, juízes, advogados, psicólogos, pesquisadores, psiquiatras e parentes das vítimas.

A partir dos crimes que tiveram grande impacto social e vasta divulgação na última década, a autora procura entender o que existe por trás do ato de abuso e da cultura do estupro: “No estupro prevalece a lógica de que a vontade do homem é a única que importa. No fim das contas, motivações e distúrbios à parte, o homem estupra porque há uma cultura que autoriza a isso. Há uma naturalização dessa dominação do homem sobre a mulher, que existe no mundo todo, mas é profundamente arraigada no Brasil. Há uma separação do que é sexualidade masculina e feminina, como se fosse algo natural, biológico, e não um conceito construído ao longo dos séculos, o que faz com que atitudes absurdas sejam consideradas comuns em nossa sociedade.”

Em “Abuso” Ana Paula Araújo derruba o imaginário popular da figura do abusador: “Ao contrário do que muita gente pensa, o estuprador não está apenas em lugares ermos, escondido atrás de um matagal, pronto para atacar mulheres incautas. Isso até acontece, mas não é o comum. Na maioria dos casos, os estupros acontecem dentro de casa e os criminosos são familiares, vizinhos mais velhos que a vítima, religiosos de todas as denominações, professores e chefes. Há sempre uma relação de subordinação e dominação. Raramente vítima e estuprador estão numa posição de igualdade de idade ou hierarquia, seja ela qual for. E, mesmos nos parcos casos em que ambos estão no mesmo patamar, a dominação se dá por meio da violência, quando a força física é superior.”

No Brasil do século 19, o estuprador de uma mulher solteira era condenado a duas penas optativas. A primeira era se casar com a vítima. A segunda pagar um dote à vítima e sair da cidade. Até o Código Penal Brasileiro de 1940, o estupro era considerado um “crime relativo aos costumes”, um crime que atentava “contra os valores da sociedade”, não contra a pessoa, não contra a mulher. Até 2005, o Código Penal Brasileiro ainda caracterizava o estupro como “ter conjunção carnal com uma mulher honesta”. Abusar de uma “mulher desonesta” não era necessariamente crime.

Esses exemplos demonstram como a cultura do estupro está impregnada no sistema judiciário brasileiro. Para a autora, apesar das recentes leis especificarem que a palavra da vítima é uma prova determinante no caso de estupro, delegados, juízes e desembargadores ainda não leva em consideração a palavra da vítima mulher. A palavra do criminoso homem geralmente permanece mais convincente.

O teor mais triste de “Abuso” está no depoimento das vítimas. São mulheres que carregam por toda a existência as invisíveis sequelas do abuso: “O estupro define a vida de muitas mulheres, mesmo entre as que superam a violência pela qual passaram. O trauma pode ser superado, mas não apagado.”

Mulheres que contam como foram julgadas, vistas com desconfiança e consideradas culpadas pelo estupro que sofreram: “É inacreditável que, nos dias de hoje, ainda seja preciso frisar que a vítima nunca é culpada, que não importa o que ela estava vestindo, se bebeu, a que horas estava na rua. O estuprador não ataca por causa disso, inclusive porque há crianças ou idosas que são atacadas, crimes que acontece em plena luz do dia e dentro de casa. O comportamento do criminoso não é responsabilidade da vítima.”

A partir dos relatos das vítimas e dos dados apresentados, o livro abre a possibilidade para a angustiante percepção de que em todo abuso, em todo estupro, ocorrido a cada 11 minutos no país, sempre existe um cúmplice para o crime. E esse cúmplice pode ser a família, pode ser a polícia, pode ser o judiciário, pode ser a igreja, pode ser a escola, pode ser o sistema de saúde, pode ser a sociedade. Ou pode ser todos ao mesmo tempo.

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. | Foto: Divulgação

Serviço:

“Abuso – A Cultura do Estupro no Brasil”

Autora – Ana Paula Araújo

Editora – Globo

Páginas – 320

Quanto – R$ 49,90 (livro) e R$ 31,90 (e-book)