Estudo ou talento?
O ator, diretor e professor de teatro Sérgio Mello, 32 anos, é um exemplo de como a diferença no modo de encarar a arte pode ser determinante na profissionalização. Sua relação com o teatro começou aos 11 anos, como uma terapia para tentar vencer a timidez. Foi aos 16, quando passou a ter aulas com a Companhia de Teatro Armazém, que descobriu que ser ator, além de uma arte, também era uma profissão a ser levada muito a sério.
Foi então que Sérgio resolveu estudar e se dedicar de verdade ao teatro. Fez cursos, estudou, ensaiou e montou peças. Para se manter, trabalhou em agência de turismo e em um banco. ''Passei anos pagando para fazer teatro, mas encarava isso como um investimento.''
De posse dessa bagagem, foi chamado para dar aulas na Escola Municipal de Teatro (EMT) - atividade que exerce há oito anos e pela qual é apaixonado. Pouco depois, também foi convidado a integrar a equipe do Plantão Sorriso - e desde então sua renda vem só do teatro. ''É preciso ter convicção. Nunca me passou pela cabeça desistir porque não ia dar certo ou não ia dar dinheiro'', admite Mello, que diz não acreditar em talento. ''Há quem tenha uma predisposição para se dar bem, mas nem sempre isso funciona. O que dá certo é ter paixão, vontade de fazer e correr atrás. Tem que estudar muito, ser eclético, ver filmes, dança, música, artes plásticas e ler de tudo um pouco'', ensina.
Ele recomenda ainda que o candidato a ator procure estudar, fazendo curso de teatro ou mesmo faculdade. ''A EMT é o primeiro passo para o segundo que é a faculdade de Artes Cênicas. A escola é mais prática. Já o embasamento teórico-prático ele terá na faculdade.''
Mas e em relação aos escritores, para os quais não existe curso ou faculdade, como fazer? ''A preocupação inicial deve ser a aquisição da competência artística. Principalmente em relação aos escritores, que geralmente são autodidatas e precisam de um período para se aprimorar'', aponta o poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.
Mendonça descobriu sua vocação para a escrita ainda na infância. Mesmo formado em Direito e tendo exercido a advocacia por alguns anos, ele nunca deixou de se dedicar à literatura, seja fazendo traduções, publicando poemas, fazendo resenhas para jornais e até criando roteiros publicitários. ''Nunca tive essa preocupação de viver de literatura. Não se vive de poesia, nem aqui nem em outros países. Geralmente os poetas têm outras atividades paralelas'', observa, lembrando que, antigamente, a arte não era vista como um nicho de mercado. ''A gente achava que se estudasse, produzisse e se aprimorasse, nosso trabalho seria cada vez mais reconhecido e as editoras investiriam. Mas a realidade hoje em dia é outra'', admite.
Ainda assim, para entrar na fila do mercado das artes, continua sendo privilegiado quem tem melhor formação - independente de idade, tempo de estrada, vocação ou mesmo talento. ''Sempre foi complicado, mas acredito que a preocupação central do artista não deve ser buscar a sobrevivência, mas a criação'', resume Mendonça. (A.I.)





