Estudo de religiões com matriz afro ainda gera polêmica
Segundo a professora de filosofia Marileide Soares de Lima, o estudo de religiões de matriz africana e/ou afro-brasileira ainda é um dos pontos mais polêmicos dentro da educação para as relações étnico-raciais.
''Procuramos abordar o tema dentro de um respeito ao simbolismo, que marca a cultura religiosa africana. A ideia não é 'converter' ninguém. Acredito que a escola deva ser um espaço para o debate que visa o esclarecimento'', argumenta. Dentro desse pensamento, vale pontuar alguns aspectos pertinentes da questão:
- Divindades africanas - Com a vinda compulsória para o Brasil de diversos grupos étnicos africanos, mais predominantemente os denominados Bantos, Yorubá e Fon, pode-se verificar que as divindades (inkices, orixás ou voduns) são cultuadas e celebradas em meio a uma nova adequação cosmológica, sendo que segundo o filósofo Kant, cosmologia é a ciência ''que procura determinar as características gerais do universo em sua totalidade''.
- Mitos africanos - A cultura afro-brasileira, no seu aspecto religioso, tem como fundamento muitos mitos para organizar-se, sendo estes considerados metáforas da potencialidade do ser humano. Os mitos africanos mantêm o ser humano também conectado à unidade da natureza. Dentro dessa visão, o mundo é concebido como um Todo, onde todas as coisas se religam e interagem. Há uma relação direta entre a cultura africana e o comportamento cotidiano do homem e da comunidade.
- A 'demonização' de Exu - Dentro do mito da criação, o primeiro ser a ter vida foi Exu, denominado ''demônio'' pela visão de mundo judaico-cristã. Na cultura africana ele é uma divindade responsável pelo princípio dinâmico de comunicação e individuação, o princípio da existência cósmica e humana. O Exu seria o portador por excelência do axé, considerado a energia universal. O axé atuaria dentro de nós, como força de irradiação, como abertura para captar mais energia e colocá-las a serviço dos demais.
Parâmetros do monoteísmo - Embora as religiões de matriz africana e afro-brasileira não se inscrevam no rol das tradições judaico-cristãs, elas se enquadram nos parâmetros do monoteísmo. Os orixás, inkices e voduns não são deuses e sim divindades. A religião afro se reporta a um Deus que denominam de Olorum, Eledumaré ou Obatalá (yorubá), de Zambi (banto) e de Mawu (fon). (A.P.N.)
Fonte - Educando para as relações étnico-raciais II, Cadernos Temáticos, Jairo Pereira de Jesus





