Quem acompanha de perto a carreira de Eliete Negreiros sabe que a cantora não lança um disco há muito tempo, apesar de continuar na ativa, participando de shows e projetos especiais. A justificativa para essa ''pausa'' é louvável, convenhamos. Nos últimos cinco, seis anos, Eliete se debruçou, com absoluta convicção, sob o campo do saber, da reflexão.
No ano passado, ela defendeu dissertação de mestrado ''Ensaiando a Canção - Paulinho da Viola'', pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, que agora planeja transformar em livro, com algumas adaptações palatáveis ao público. Àqueles que desconhecem sua faceta acadêmica, vale ressaltar que Eliete formou-se em Filosofia, na própria USP, na década de 70. Ela se recorda que, na época em que frequentava o curso, não conseguia administrar a carreira de cantora e as aulas na faculdade. Resolveu, em primeiro lugar, terminar a faculdade, para depois ver o que faria de vida. Seguiu na música, no final das contas. ''Meu sonho era unir filosofia e música, e é claro que é possível reunir os dois'', diz. ''Fiquei cantando um tempo, mas estava com saudades dessa parte dos estudos.''
Apreciadora declarada da obra de Paulinho da Viola, confessa que, a princípio, pensou em sua dissertação atrelada à análise de três canções, apenas uma delas, ''Para Ver as Meninas'', de autoria do compositor carioca. A música de Paulinho foi seu ponto de partida, o suficiente para uma significativa mudança no foco da tese. ''Depois de 'Para Ver as Meninas', comecei a pensar em outras canções de Paulinho e uma vontade de trabalhar só com ele.''
Nesse universo de muitos temas e vertentes que é Paulinho, ela se ateve a uma parte da obra dele, como se fizesse um recorte. A partir de canções como ''Pressentimento'' e ''Coisas do Mundo, Minha Nêga'', estruturou ensaios ''avulsos''. ''Outras músicas estavam mais concentradas num só disco, ''Nervos de Aço'', com o qual faço outro ensaio a partir dessa totalidade.''
Segundo ela, um traço muito forte de seu estudo está no aspecto lírico do compositor, na sua subjetividade. ''Peguei também o aspecto transcendental'', observa. ''O homem se depara com o mundo, com o infinito. E esse sentimento de ''infinitude'', de impossibilidade de conhecer, está muito presente no trabalho dele.'' Eliete cita um trecho da música ''Para Ver as Meninas'', para reforçar a percepção que o compositor tem sobre a fragilidade da vida, que diz: ''Porque hoje eu vou fazer/Ao meu jeito eu vou fazer/Um samba sobre o infinito.''
O texto também não perde de vista o Paulinho da Viola como mestre popular e o tempo presente em sua obra por coincidência, tema este abordado no recente documentário de ''Meu Tempo É hoje'', de Izabel Jaguaribe. ''Abordei o tempo de forma diferente. No filme, está toda a concepção que Paulinho tem do tempo. Eu não sabia disso, mas pressenti.'' Já como mestre, Eliete enxerga essa virtude do compositor de maneira simbólica, como se o ritual de seus shows, em que ele é rodeado pelo público, fosse comparado ao de um encontro com um mestre tradicional, que reúne os discípulos à sua volta e lhes passa ensinamentos. Nos dois casos, fica a critério dos ouvintes acatá-los ou não.
Todos os elementos filosóficos, literários e da música recebem o reforço de textos de Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Rousseau, Maurice Merleau-Ponty, entre outros. O próprio Paulinho teve acesso à tese da cantora e, segundo ela, ele aprovou. ''Esse estudo incentiva a refletir sobre canção e poesia. Levanta questões, cita autores e escolheu um grande compositor. É uma reflexão que não está fechada, pode ser continuada.'' Além do livro, Eliete Negreiros pensa em retomar o projeto de um novo CD, até hoje engavetado.

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