Estudantes elegem uma 'prefeita'
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segunda-feira, 03 de outubro de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 


A cidade de Londrina acordou ontem com um novo prefeito eleito para os próximos quatro anos. Marcelo Belinati venceu sete adversários e conquistou o pleito no primeiro turno com mais de 136 mil votos, correspondendo a 51,57% dos votos válidos. O segundo candidato, Valter Orsi, levou mais de 93 mil votos, o equivalente a 35,33%. Se esta foi a primeira vez na história do município em que um candidato se elege no primeiro turno, o número de votos brancos e nulos também marcou seu capítulo. Foram cerca de 12 mil e 24 mil, respectivamente. Somente a abstenção ultrapassou a casa dos 51 mil, uma quantidade muito expressiva. Juntos, os números somam mais de 87 mil possíveis votos que não foram direcionados a nenhum candidato. Segundo especialistas, isso representa, mais do que nunca, uma descrença e desinteresse da população pela política, sobretudo após as últimas denúncias nacionais de corrupção.
Grande parcela da população que se enquadra nesses números é de jovens que, ao contrário de décadas atrás, não se envolvem mais com a política. Porém, no que depender dos alunos do Colégio Universitário, esse panorama tende a mudar. Desde o início do ano, estudantes do segundo ano do Ensino Médio mergulharam em uma intensa experiência: o projeto "Eleições", que tomou conta dos jovens e movimentou as atividades de toda escola por meses. Com base nos mesmos princípios de uma eleição real, os alunos puderam aprofundar seus conhecimentos sobre política e democracia de um jeito diferente, por meio de um projeto desenvolvido pelo professor de História do Brasil, Rafael Ferreira. Dentro da proposta, os estudantes se transformaram em candidatos fictícios à Prefeitura de Londrina, mas com nome, biografia, ideias e partidos criados exclusivamente para o projeto, dando vida a personagens na corrida pelos votos da comunidade do colégio.
O professor explica que o projeto foi desenvolvido de maneira a despertar o interesse nos jovens pela política, seu funcionamento e sua importância. "Aproveitamos o clima das eleições municipais e criamos um projeto extenso em que todos puderam participar ativamente. Após entenderem como se dá o processo eleitoral municipal, sobretudo as atribuições e responsabilidades dos prefeitos e vereadores, iniciamos uma grande campanha. As salas foram divididas nas chamadas prévias, em que foram escolhidos quatro representantes por sala, em um total de 16 potenciais candidatos", explica. Daí em diante, começava o grande desafio de elaborarem um plano de governo, formular uma ideologia partidária, criar uma biografia do candidato e desenvolver uma campanha. "Aquele que tivesse o melhor desempenho nessa fase, seria o escolhido para candidato de forma que quatro, um de cada turma, entrasse na disputa."
Os quatro candidatos escolhidos foram "Vitória Mattos", aluna Luíza Santaella Kaster, pelo Partido Acionista Revolucionário da Educação; "Ayrton Caeiro dos Santos", aluno Artur Norio Mizuno, do Partido Popular Progressista; "Chico Dequech", aluno Fouad Philippe Nabhan, do Partido Democrático Republicano; e "João da Silva", aluno Gustavo Garcia Ferreira, do Partido Social Nacional. Toda a sala, responsável por um deles, durante três meses, desenvolveu toda a campanha e material de divulgação com base na pesquisa realizada pelos adolescentes. "Para isso, eles percorreram vários pontos da cidade, locais, inclusive, que nunca haviam ido, conversaram com a população para identificar quais eram os problemas para, assim, proporem soluções reais seguindo os princípios do partido criado e o plano de governo."
A etapa seguinte era sair a campo e conquistar o voto do eleitor, nesse caso, toda a comunidade escolar, ou seja, alunos, pais, professores e demais funcionários. Na semana das eleições, os alunos-candidatos participaram de um grande debate, nos mesmos moldes de um real, em que puderam questionar seus adversários e defenderam suas propostas. Ao final da semana, toda a comunidade escolar participou da eleição votando em seu candidato escolhido. O sistema foi todo eletrônico, com os votos sendo registrados em computadores e o vencedor anunciado ontem. A candidata Vitória Mattos alcançou 34,6% dos votos, o equivalente a 229 eleitores, sendo a eleita na grande simulação de disputa. "Fiquei muito satisfeito com o empenho e interesse dos alunos em todo o processo. Passaram a olhar a política com outros olhos e de que se trata de uma ciência fundamental para o cidadão crítico e consciente. Depois dessa experiência, acredito que saberão escolher representantes comprometidos com a ética e com as leis", complementa o professor. Os alunos também puderam participar de um debate com os prefeituráveis reais em evento promovido pela escola.

A EXPERIÊNCIA DO DEBATE
Antes da experiência do debate, os alunos estavam ansiosos pela participação, pois, pela primeira vez, enfrentariam um público e o embate dos adversários. "Não fazia ideia de como funcionava a política. Foram muitas pesquisas para entendermos todo o processo e, agora, sabemos da importância do gestor aplicar os recursos de forma correta e assertiva", disse o aluno Artur Norio Mizuno, que representava o candidato Ayrton Caeiro dos Santos. "Toda essa experiência nos deu ideia de como funcionam os contratos da prefeitura, a relação entre o público e o privado, o custo de uma cidade e o que se pode ou não investir", comenta o aluno Fouad Philippe Nabhan, representando o candidato Chico Dequech.
Sobre a aplicabilidade dos planos de governo desenvolvidos, a aluna Luíza Santaella Kaster, representando a candidata Vitória Mattos, faz questão de frisar que são se tratam de ideias utópicas, mas baseadas em estudos de viabilidade. "Elaborando nossas propostas, percebemos que muitos políticos prometem ações inviáveis ou que não são de sua competência. Se as pessoas são alienadas politicamente, aceitam essa situação sem questionar." Já o aluno Gustavo Garcia Ferreira, que representou o candidato João da Silva, diz que, além de estudar o plano de governo a fundo, saber defender as propostas com convicção diante dos eleitores foi um grande desafio. "Precisamos saber do que estamos falando, dos problemas e das soluções. Acredito que muitas de nossas propostas são perfeitamente cabíveis para o prefeito real colocar em prática."


