Quem assistiu ''Ilha do Medo'', novo filme do cineasta Martin Scorsese lançado este ano, talvez não tenha prestado atenção nos créditos finais. Neles está a informação que o roteiro foi inspirado em ''Paciente 67'', romance do escritor norte-americano Dennis Lehane. A obra foi lançada no Brasil em 2005 e acaba de ganhar uma reedição pela editora Companhia das Letras com um novo título, ''Ilha do Medo'',no rastro do sucesso do filme.
Assim como na versão cinematográfica de Scorsese, a história original de Dennis Lehane é uma narrativa pautada por segredos, um mistério nebuloso que é abatido por uma tempestade psíquica. No romance, a mente é apresentada como um labirinto em que a realidade não seria aquilo que acontece do lado de fora, no campo do real comum a todos. Ela seria aquilo que acontece dentro da mente de cada homem e, no caso específico de ''Ilha do Medo'', na mente de um determinado homem.
Não se trata da primeira obra do autor adaptada para o cinema. Em 2003, Clint Eastwood transformou em filme o romance ''Mystc River'', que recebeu o título no Brasil de ''Sobre Meninos e Lobos''. Dennis Lehane é o tipo de escritor que não indica ao leitor o melhor lugar do rio para pescar. Muito menos coloca um pacote peixes em suas mãos. Simplesmente empurra o leitor dentro do rio. Isso não significa que, para ele, o leitor mereça um banho, ou mesmo um afogamento. Significa que, antes de chegar ao peixe, o leitor deve sujar os sapatos no barro das margens, sentir as águas turvas ensopando as meias.
Em ''Ilha do Medo'', o autor apresenta a história de dois policiais que, no final da década de 50, recebem a incumbência de investigar o desaparecimento de uma interna das dependências de um hospital psiquiátrico, localizado numa ilha. Não se trata de um hospital qualquer, mas uma prisão onde estão isolados os criminosos mais ensandecidos dos Estados Unidos, responsáveis por assassinatos insanos e brutais. O lugar utiliza métodos experimentais de tratamento que envolvem novas drogas, cirurgias inusitadas e técnicas militares de guerra.
No momento em que os investigadores colocam os pés na ilha, uma violenta tempestade ser aproxima no horizonte. Assim, duas tempestades atravessam a narrativa de ''Ilha do Medo''. A tempestade natural, uma espécie de tufão que varre o lugar, e a tempestade das investigações, onde descobertas sobre descobertas tumultuam o cotidiano do hospital.
Na verdade essas duas tempestades são utilizadas para encobrir outra tempestade mais aterradora ainda: a tempestade mental de um dos personagens. Esse é o grande segredo do romance, a grande surpresa, revelado apenas nas páginas finais numa espécie de jogo psicótico.
O leitor habituado com a literatura policial de Lehane, presente em romances como ''Sagrado'', ''Apelo às Trevas'', ''Gone'', Baby, Gone'' ou ''Dança na Chuva'', todos protagonizados pelos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, encontrará algo diferente em ''Ilha do Medo''. Diferente de tramas policiais, encontrará uma história onde a violência é apresentada como uma resposta à vida desagregada por perdas. Uma abordagem próxima daquela realizada por Lehane em seu único volume de contos publicado, ''Coronado'' (Cia. Das Letras, 2004).
O delírio indefinido de ''Ilha do Medo'' é substituído em ''Coronado'' pela loucura palpável nas mãos de uma galeria de personagens desajustados. Pessoas que, afuniladas por diversas situações, são impelidas a situações onde a violência torna-se um componente natural. As marcas da violência fazem de seus atos uma resposta para a tranquilidade. Histórias onde apenas os desajustados são capazes de dizer alguma coisa. Figuras que sujam as mãos onde o homem comum, ajustado às implicações morais, não tem coragem de tocar.
São histórias que não trazem o processo de investigações de crimes, mas aquilo que antecede os atos de violência. Lehane trabalha com a idéia de que em todo ato violento existe um sentimento amoroso antecedente. Um sentimento que se converteu em raiva, ódio, indiferença ou simplesmente um nada antes de impulsionar uma agressão, um impulso violento, uma morte.
Em ''Ilha do Medo'', a narrativa segue a estrutura mental do personagem principal, que pode ser considerada um elemento do próprio texto. Um caminho específico e particular que procura converter em matéria uma obsessão psíquica. Tudo para transformar o medo em frieza. E frieza em abrigo.

SERVIÇO
‘‘Ilha do Medo’’
Autor - Dennis Lehane
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Luciano Machado
Quanto - R$ 34 (344 pag.)

mockup