Estrelas de primeira grandeza animam Veneza
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quarta-feira, 05 de setembro de 2001
De Veneza 
De início muito calor e agora por conta de assustadores temporais. Nada parece perturbar a agitação nesta reta final da 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, que termina sábado no Lido de Veneza. No entra-e-sai de personalidades colunáveis e com potencial de frisson para as lentes dos paparazzi, entre outros circulam Denzel Washington, por conta do policial ''Training Days'', exibido fora de concurso; Uma Thurman, desfilando grávida de 5 meses com o marido Ethan Hawke (também no filme de Denzel Washington) Mira Sorvino, atriz principal de ''The Triumph of Love'', em competição; e Paul Mccartney, produtor e compositor da trilha sonora de ''Tuesday'', um maravilhoso curta metragem de animação sobre uma bando de rãs que invade voando uma pequena cidade americana, com mágicas consequências. Como sempre, ''dedicado a Linda''. Mas foi com a namorada Heather Mills a tiracolo que o ex-Beatle desembarcou de surpresa no festival cantarolando o clássico ''Volare'', para delírio da tietagem. E Steven Spielberg não virá mais a Veneza amanhã para a première européia de ''A.I. - Inteligência Artificial'' - confirmada apenas a presença do garoto Harvey Joel Osment. Antes da projeção, porém, será exibida em vídeo uma mensagem de sete minutos do diretor, contando um pouco sobre a gênese do projeto com Stanley Kubrick e o motivo da ausência: o ''Bar Mitzvah'' do filho de 13 anos.
E no entra-e-sai geral de filmes, espalhados por seções diversas em cronograma-desafio, muito para ver mas não muito o que comentar, antes mesmo por certa indiferença provocada pelo que se projeta nas seis telas oficiais - o jejum existe, mas nunca por falta de filmes. Mas há sempre o que compense o trânsito quase furioso entre as salas. Como três documentários fora de concurso: ''Lo Sguardo Che Ha Cambiato Il Mondo'', apaixonado e valioso retrato do mestre Michelangelo Antonioni; ''Le Loup et l'Agneau - John Ford e Alfred Hitchcock'', registrando entrevistas preciosas com dois monstros sagrados gravadas nos anos 60, o impulsivo irlandês Ford e o formal gentleman britânico Hitchcock; e ''Porto da Minha Infância'', bela e melancólica viagem na mémoria de uma cidade, segundo seu filho mais ilustre, o nonagenário Manoel de Oliveira.
Muitas vaias italianas para o italiano ''Luce dei Miei Occhi'', drama de Guiseppe Piccioni. O filme não é assim tão desprezível, e não merecia a má vontade dos conterrâneos. Em torno de três personagens, um drama urbano sobre solidão, busca existencial e redenção através do amor. Já ''Eden'', de Amos Gitai, o mais dissidente dos cineastas de Israel, é filme pacifista a partir de um conto de Arthur Miller, que aos 86 anos faz sua estréia como ator. ''Eden'' conta o nascimento de uma nação através de uma família que se estabelece na Palestina nos anos 40. E sonha com a terra prometida, ainda que a História que se escreve nesses dias não visualisa nenhum ''happy end'' para o Oriente Médio.
''O Voto Secreto'' é o iraniano da vez. Como sempre mostrando um cinema minimalista, de poucos e longos planos-sequência, desta vez o representante é o diretor Babak Payami. No confins do Irã, o dia de eleição está longe da festa que se conhece no Ocidente. Com a urna na mão, uma jovem voluntária percorre muitos quilômetros em busca de eleitores, um por um. Pelo caminho, e entre eleitores diversos, reflexões em torno da importância do voto. Quase um filme-demonstração. Em outros extremo se coloca o austríaco ''Hundstage'', de Uirich Seildl, um microcosmo da classe média vienense. Um verão tórrido, enclausurando e ''monstrificando'' personagens em aparente normalidade.
Um filme coral em que a solidão se traveste de sensualidade antiestética e a angústia não encontra palavras. Neste sentido, o austríaco Seildl faz o cinema da desesperança e da vacuidade do discurso. Presente todo o tempo, o risco do ridículo sempre superado no limite. Um filme difícil e corajoso - há uma sequência explícita de sexo grupal, necessária para a compreensão do todo.(C.E.L.J.)


