Até as iniciais não negam seu status de realeza: HM, Her Majesty, Helen Mirren. Aos 61, favorita absoluta para levar a estatueta no próximo dia 25, esta inglesa de 61 anos é reconhecidamente um talento excepcional, e já há um bom tempo garantiu lugar cativo entre o seleto grupo de atrizes que podem aspirar a este improvável título de ''melhor atriz do mundo''.
Esta singular hierarquia, por exemplo, fez com que a Coppa Volpi que ela recebeu no último Festival de Veneza pelo papel em ''A Rainha'' fosse o único prêmio garantido por absoluta unanimidade, tanto do júri como dos jornalistas e do público.
É compreensível. Quem quer que já a tenha visto em papéis principais ou secundários, no cinema ou na televisão (e alguém mais feliz, também no teatro), sabe que Mirren é capaz de se transfigurar em cada oportunidade e fazer com que seus personagens se mostrem, às até numa única cena, alternadamente concentrados, ausentes, graciosos, agressivos, ásperos, vulneráveis, risonhos, tímidos, dolentes, frios como o gelo ou ardentes de paixão - mas sempre, no fundo, senhores de especial fortaleza.
Em setembro do ano passado, poucos dias antes de levar o prêmio em Veneza, ela havia ganho um Emmy televisivo (o terceiro na carreira) pelo trabalho na minissérie ''Elizabeth I''. E na Itália começou sua carreira de prêmios com esta outra rainha, a Elizabeth II de ''The Queen''.
Em entrevista à Folha no Hotel Excelsior no dia seguinte à consagração no Palazzo Del Cinema, onde foi ovacionada por 15 minutos, Helen confessou que ''seguramente foi o mais arriscado papel de minha vida, porque se tratava de encarnar uma pessoa viva. Estudei muitos e muitos filmes onde aparece a rainha Elizabeth para saber como ela caminha, como direciona a cabeça, o que faz com as mãos, quando coloca os óculos, quando está tensa ou relaxada. Mas não importa o quanto você se aproxima do personagem, ou quanto você se esforça para conseguir sua voz ou o seu andar, porque nunca será realmente ele''.
Comentando o ótimo momento profissional que atravessa, Helen Mirren disse com bom humor que ''se você se mantém de pé, tudo parece mais fácil, porque a competição é menor''. Mirren, aliás Yliena Lydia Mironoff, neta de um aristocrata russo exilado em Londres e filha de um taxista, tem uma formação teatral sólida consolidada na Royal Shakespeare Company (''Sou louca por Shakespeare''), onde estreou ao 19 anos fazendo uma ''Cleópatra'' deslumbrante, arrojada, despótica mas sobretudo sensual, característica que levaria para inúmeros outros personagens - a aristocrata decadente em ''Um Homem de Sorte"'' (73), a Morgana de ''Excalibur''(81), a Cesonia em ''Calígula'' (79), a ressentida mulher do ladrão em ''O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante'' (89) ou a estranha companheira de Christopher Walken em ''Estranha Sedução'' (90).
Mas ficou famosa mesmo nos Estados Unidos como a policial da série televisiva ''Prime Suspect'', entrando agora em sétima temporada, um trabalho que a transformou na atriz mais bem remunerada da televisão inglesa - salário total de cerca de 750 mil libras. Feminista militante, é filiada ao Partido Trabalhista e ativista de causas sociais, como o combate a AIDS na África. Sexagenária, Helen Mirren, ao contrário de muitas colegas, não esconde a idade e nem se deforma às custas de cirurgias, botos ou colágeno. ''Sempre haverá papéis para gente mais velha'', justifica. Talvez por isso tenha sido eleita recentemente a mais sexy de todas as atrizes veteranas, segundo enquete da revista Lovefilm. Deixou para trás Sofia Loren, Meryl Streep, Judi Dench e Diane Keaton.
Este é, sem dúvida, o segundo motivo para vê-la a partir de hoje no circuito local, mesmo que seu papel de Elizabeth II seja absolutamente assexuado.

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