Estrela (de)cadente
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de março de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
O colapso mental que transformou em piada a vida de Charlie Sheen, ex-protagonista da série com maior ibope da televisão americana - ''Two and a Half Men'', pela qual ele ganhava US$ 1,2 milhão de dólares por episódio - parece mesmo ter ultrapassado todos os limites da normalidade. Hoje, o filho de Martin Sheen aparece constantemente bebendo uma bebida vermelha apelidada por ele de ''Sangue de Tigre'', se auto-proclama um ''líder guerreiro'' e cultiva uma fixação doentia por bebidas e drogas, principalmente pelo consumo daquela substância que, pelas suas próprias palavras, ''é tão forte e perigosa que vai explodir a cabeça de qualquer um, menos a minha''.
A série de acontecimentos bizarros que rodeiam a vida do ator vêm chamando constantemente a atenção de fãs e paparazzis ao redor do mundo, estampando capas de jornais e revistas de celebridade. A decadência física e psicológica do ator Charlie Sheen é a pauta principal dos tablóides de fofoca em Hollywood, e está sendo seguida minuto-a-minuto por uma cobertura sem precedentes; nunca antes foi possível acompanhar tão de perto - por todos os meios de comunicação - o salto no precipício de uma das estrelas mais bem pagas do mundo.
Sheen nunca foi exemplo de bom-mocismo - pelo contrário, o ator tem uma história de vida marcada pelo abuso de álcool, drogas e violência contra mulheres - mas, só depois de 2009, ao se separar de sua mulher Brooke Mueller, é que Sheen embarcou em um verdadeiro espiral destrutivo; a sua companhia mais frequente eram atrizes pornô, e ele aparecia em noticiários sendo acusado de realizar orgias que destruíam quartos de hotel, regadas a muito uísque e drogas.
Lado a lado com o desastre de sua vida pessoal, o sucesso profissional de Sheen nunca esteve melhor. A audiência da série ''Two and a Half Man'' - que retrata a vida de seu alter-ego: um solteirão rico, mulherengo e alcoólatra - alcançava níveis surpreendentes, e o ator passou a ser considerado uma das peças mais importantes da rede CBS. Muitos fãs, notando as semelhanças do personagem de Charlie Sheen com os acontecimentos de sua vida real, desconfiavam que os escândalos envolvendo o ator eram falsos, e que tudo não passava de uma estratégia comercial para promover a série - só na semana passada, com a demissão do protagonista e o cancelamento da temporada, é que essas teorias foram de vez por água abaixo.
Charlie Sheen fez por merecer a expulsão de sua própria série. No começo do mês, depois de se recuperar do tratamento de uma hérnia - desencadeada por uma festa de três dias e um ''balde'' de cocaína - o ator voltou para Los Angeles e, assim que pisou em solo californiano, produtores dos mais variados programas de televisão marcaram entrevistas com o ator para buscarem declarações polêmicas. Com a faca e o queijo na mão, Sheen disparou besteiras para todos que quisessem ouvir: chamou o seu chefe e criador da série, Chuck Lorre, de um ''estúpido, um pequeno homem idiota'', falou que os produtores da Warner eram nazistas e disse que a organização dos 'Alcoólatras Anônimos' era feita para ajudar pessoas imbecis e fracas. Ele comemorou sua demissão da maior série da TV americana na sacada de um hotel, ao lado de atrizes pornô, girando um facão no ar.
O descontrole do ator chamou a atenção do mundo. Após abrir uma conta no microblog Twitter, o @charliesheen arrebatou um milhão de seguidores em 24 horas, feito inédito na rede social. Na semana passada, o primeiro capítulo do seu programa caseiro Sheen's Korner (cantinho do Sheen) teve a audiência, ao vivo através da internet, de 100 mil pessoas. O talk-show esquizofrênico é o perfeito exemplo do circo em que se transformou a vida do ator; Sheen aparece em frente às câmeras magro e descabelado e, entre um cigarro e um gole de uísque, fala sobre coisas incoerentes e desconexas.
É quase impossível prever o próximo passo em direção ao abismo de Charlie Sheen. Ele recentemente foi convidado para dirigir uma paródia pornô do seriado que estrelava - chamado ''Two and a Half Woman'' - e vai embarcar em uma turnê, já com ingressos esgotados, para fazer palestras motivacionais. Além disso, Sheen planeja lançar um livro virtual, porque ''salvaria um monte de árvores que nos dão oxigênio e nós amamos.''
O ator parece estar a salvo do esquecimento enquanto a curiosidade mórbida de Hollywood durar. Só nos resta torcer para que ele não comece a queimar cigarros na própria pele ou fazer cortes com uma tesoura; isso certamente atrairia um pelotão de câmeras, que nos trariam, em alta definição, cada detalhe da insana auto-mutilação.


