São Paulo, 16 (AE) - É o Natal das crianças. Estréiam amanhã (17) "Toy Story 2" e o novo filme de Xuxa. Embora a estréia oficial seja somente no dia do Natal, "O Trapalhão e a Luz Azul" também terá pré-estréias a partir de amanhã. E até domingo, os mais afoitos poderão assistir à pré-estréia de "007 - O Mundo não É o Bastante", o novo James Bond, que também não deixa de oferecer atrativos para platéias juvenis.
"Xuxa Requebra" entra em 250 salas de todo o País. "A Luz Azul" entra em quase uma centena de salas do País, no fim de semana do Natal forma-se o grande circuito de 250 salas. "Toy Story 2" será exibido por 348 cinemas e "O Mundo não É o Bastante" por mais 170. Mais de 1,1 mil salas exibindo apenas quatro filmes e todos voltados para crianças e adolescentes. O público adulto só não fica sem alternativas porque no Natal a Pandora reprisa "Morte em Veneza", de Luchino Visconti, e "Crônica de um Amor Louco", de Marco Ferreri.
A diretora de arte Iurika Yamasaki é o elemento comum em "Xuxa Requebra", dirigido pela irmã dela, Tizuka Yamasaki, e "O Trapalhão e a Luz Azul". Poder-se-ia pensar que, por causa disso, houvesse uma certa semelhança visual entre os dois filmes. Não há. São radicalmente diferentes em tudo. Para assinalar o 40.º filme de sua carreira, Renato Aragão, dirigido pelo filho, Paulo, escolheu uma história adaptada dos Irmãos Grimm, com um reino ameaçado, um herói, seu assistente trapalhão e uma bela princesa, o que equivale dizer que Didi continua formulando o conceito clássico de mito de forma acessível.
Xuxa - Mais moderninha, Xuxa estrela uma história sobre concursos amadores de dança, com sugestões de sexo e drogas. E ambos os filmes carregam nos números musicais, uma tradição do cinema popular brasileiro que remonta às chanchadas carnavalescas dos anos 50. Xuxa detesta cigarro - acha fininho, caro e fedorento. A consequência é que "Xuxa Requebra" divide o mundo em fumantes e não fumantes. A mocinha e seus amigos, que tentam salvar uma academia de dança, não fumam. A vilã (Elke Maravilha) e seus asseclas mais parecem chaminés. Xuxa faz uma repórter, mas isso não tem muita importância. O que importa é que ela vai tentar impedir que Macedão se aproprie da escola que pertenceu à sua benfeitora. Há referências a drogas e sexo. Uma garota fica cega porque seu namorado provocou um acidente quando drogado. Daniel canta que amor não é só sexo, mas sexo faz parte do amor. Alguns críticos estão reclamando. Acham que nada disso tem a ver com o público de Xuxa. Tem tudo a ver, sim. Xuxa vive fazendo cruzada contra as drogas na TV e quanto ao sexo, bem, não é ela que é acusada de viver sexualizando a infância, com modismos e trejeitos que transformam as baixinhas em adultas em miniatura?
Tizuka Yamasaki já foi uma diretora séria (na época de Gaijin, os Caminhos da Liberdade). Há tempos que não suscita o mesmo entusiasmo, mas pode gabar-se de ter assinado o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro nos anos 90. "Lua de Cristal", graças ao carisma de Xuxa, obteve a impressionante marca de mais de 5 milhões de espectadores no País. Em benefício de Tizuka diga-se que "Xuxa Requebra" ostenta certo cuidado técnico, com alguns movimentos de câmera bonitos nas cenas de dança. Mas o excesso de merchandising e participações especiais esgota a paciência de qualquer um, a menos que o espectador seja fissurado em Luciano Huck, Tiazinha, Feiticeira e Carla Perez.
Antigamente, a chanchada da Atlântida era como um rádio no cinema. Produtos como "Xuxa Requebra" e "O Trapalhão e a Luz Azul" são um pouco como a TV no cinema. Renato Aragão queria que "Luz Azul" fosse especial, até para comemorar o número redondo - 40 filmes. O estilo de humor é o mesmo da TV, os atores são todos da TV. Uma boa pergunta é se esse tipo de cinema vai levar às salas um espectador, criança ou adulto, não importa, que pode ver esse mesmo tipo de produto (ou um similar parecido, com as mesmas pessoas) em casa, de graça. Mas cabe destacar que "A Luz Azul" ostenta um ritmo e, por momentos, uma graça ausentes de "Simão, o Fantasma Trapalhão".
Ambos os filmes desenvolvem o mesmo tipo de conceito - é preciso lutar por aquilo em que se acredita para tornar o sonho possível, a solidariedade é necessária para vencer a adversidade e por aí afora. Por falar em solidariedade: espectadores que levarem um brinquedo entrarão amanhã de graça na primeira sessão de "A Luz Azul" em todos os cinemas. Os dois filmes tiveram movimentadas pré-estréias em São Paulo. A do filme de Xuxa foi beneficente e, a julgar-se pela reação de crianças como Luiz Henrique Abibe, Pamella e Eloá Orazem e Roberto Nunes Filho, será um sucesso, porque elas adoraram.
O de Renato Aragão levou mais de 500 crianças de orfanatos e instituições assistenciais ao cine Astor, na quarta de manhã. De novo a reação foi consagradora, sinal de que Didi continua se comunicando com seu público. Diversão de primeira - Melhor, em todos os sentidos, é "Toy Story 2". É melhor, inclusive, que o primeiro "Toy Story", no sentido de que a técnica (animação computadorizada) continua prodigiosa, mas a história consegue ser ainda mais atraente. Essa história mostra os dois brinquedos do primeiro filme, Buzz e o Cowboy, numa aventura em que enfrentam o mundo externo, o que amplia consideravelmente os estreitos limites da casa no primeiro filme.
Permeada de ação e humor, a história começa em ritmo futurista, uma sacada inteligente do diretor John Lasseter. E prossegue com o sequestro de Cowboy por um colecionador que pretende vendê-lo para um museu japonês. Buzz vai atrás do amigo e com ele vão os demais brinquedos do primeiro filme. "Toy Story 2" desenvolve conceitos como a perda, por meio da rejeição que os brinquedos sofrem de seus donos, quando eles crescem.
Mas essa idéia é equilibrada por um outro conceito: um brinquedo pode e deve participar do processo de crescimento de seu dono e, mesmo que ele venha a abandoná-lo, sempre restará a alternativa, como no caso de Cowboy e Buzz, de suprir as carências por meio de uma grande amizade. É simples, é belo e o que é mais importante: tem força para tornar "Toy Story 2" atraente para adultos e crianças. É o tipo do programa que os pais vão gostar de levar os filhos para também assistir.
"Quanto a 007 - O Mundo não É o Bastante", mostra que o tempo passa, mas James Bond continua sendo uma fantasia irresistível. Os filmes da série são bons até quando são ruins. A decantada cena de abertura, que dura 14 minutos e meio, talvez seja um tanto decepcionante, porque é repetitiva e não inova grande coisa em relação a outros exemplares da série, mas as piadinhas continuam irresistíveis (há uma sobre o charuto de Bill Clinton e Monica Lewinsky, logo no começo) e o herói permanece imbatível como idealização (e realização) das fantasias masculinas.
OK, Pierce Brosnan mostra que não deve durar muito no papel (está envelhecendo rapidamente demais), mas Sophie Marceau é nota 10 como vilã. Prestem atenção no nome dela: não é por acaso que se chama Elektra. O próprio Freud talvez se divertisse com a abordagem que o diretor Michael Apted faz do complexo de que sofre a (anti)heroína.

mockup