Curitiba - Depois que os fantasmas saíram de moda, nada é capaz de assustar tanto quanto o medo da violência, do desconhecido e da morte. O diretor indiano M. Nigth Shyamalan está se tornando mestre em transformar essas fobias em bons argumentos para os seus filmes, misturando tudo com uma boa dose de suspense. Em seu mais recente filme ''A Vila'', que estréia hoje nas salas do Brasil (veja programação na págian 2) não é diferente. Além de colocar o medo como a engrenagem que move os moradores de um isolado vilarejo, Shylamalan volta a lançar mão de reviravoltas no roteiro para surpreender o espectador. Deu certo em ''Sexto Sentido'', Deu certo em ''Sinais'' e quase deu certo em ''Corpo Fechado'', mas isso não quer dizer que ele tenha se consagrado na fórmula.
''A Vila'' é um local isolado do resto do mundo, cercado por um bosque habitado por misteriosas criaturas que impedem que qualquer morador ultrapasse as suas fronteiras. Para se proteger das criaturas cujo nome não pode sequer ser mencionado , os moradores lançam mão de uma série de rituais. Abominam a cor vermelha e mantém vigília constante, para citar alguns.
M. Shyamalan, que incorporou o apelido ''Night'', conquistado na faculdade ao seu nome artístico, declarou em entrevistas que se inspirou em dois filmes para criar o argumento do longa: de ''O Morro dos Ventos Uivantes'' tirou a parte dramática e de ''King Kong'' o medo de uma comunidade por criaturas predatórias. É um pouco difícil imaginar a união desses dois clássicos, então é bom tentar enxergar o roteiro de ''A Vila'', assinado pelo diretor, como algo único.
O filme chega aos cinemas depois de uma intensa campanha para que seu final não seja revelado. Há pelo menos três semanas, a MTV exibe comerciais do longa ressaltando para que seu desfecho não chegue até os próximos espectadores. A campanha se repete em outros tipos de mídia, usando a expectativa como a principal arma para levar as pessoas ao cinema. Em Curitiba, ''A Vila'' foi exibido para jornalistas na última terça-feira e também não faltaram recomendações para que ninguém deixasse escapar detalhes que possam revelar o verdadeiro argumento do filme.
Com orçamento de US$ 60 milhões, já recuperados nas primeiras semanas de exibição nos Estados Unidos, o longa conta com bom elenco e argumento convincente, mas não chega a ser verdadeiramente surpreendente como deseja o diretor. Joaquin Phoenix (irmão de River) volta a trabalhar com Shyamalan depois de ''Sinais''. Ele faz parte da 'ala jovem' da comunidade da vila, fazendo par romântico com Bryce Dallas Kirsten Dunst, a filha cega de um dos dirigentes da comunidade (Willian Hurt). Cabe a ela atravessar o temível bosque para buscar remédios que possam salvar a vida de Lucius (Joaquin).
Também fazem parte do elenco Sigourney Weaver e Adrien Brody (de o ''Pianista'') como um jovem com problemas mentais que coloca em risco o amor de Lucius e Ivy (Bryce Dallas) e também todo o segredo mantido pelos dirigentes da comunidade. E só o que se pode falar sobre o roteiro para não comprometer a corrente publicitária do longa. Fora o roteiro, no entanto, uma outra característica deve liderar a crítica dos espectadores e movimentar o acesso dos sites de caçadores de erro das grandes produções. Sim, ''A Vila'' é capaz de surpreeender não só pelo argumento, mas também pela falta de cuidado na sua edição.
O reflexo do diretor aparecendo nitidamente em uma das cenas até passa como proposital, já que desde ''Olhos Abertos'' (1998), Shyamalan sempre aparece em seus filmes, mas os microfones surgindo nas cenas mais dramáticas é capaz de desviar a atenção até dos menos atentos. Talvez os aparelhos estejam ali para lembrar que a história não é totalmente inverossímil. É cinema.

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