ESTRÉIA TEM APELO DE HOMENAGEM
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segunda-feira, 19 de março de 2001
Simone Mattos Enviada a São Paulo 
Existe alguma semelhança entre os textos de Plínio Marcos e Nelson Rodrigues?
Eu acho que eles têm estilos muito diferentes, embora Nelson tenha influenciado Plínio Marcos... O Nelson se volta mais para a família, subvertendo valores éticos e morais que a própria família tenta trazer. Já no Plínio Marcos, encontramos um homem que se coloca na sociedade como um ser social, como aquele cara que busca sobrevivência numa realidade sufocante. Então, aí você vai encontrar o ser humano no limite de sua precariedade, mas profundamente embutido no contexto social. Isso é fantástico.
E agora os dois estão juntos num projeto do Teatro de Arena?
Exatamente, inclusive Abajur Lilás faz parte deste grande projeto chamado Quem tem Medo de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos?. É uma pesquisa profunda sobre a obra de ambos, coordenada por mim e por Marco Antonio Brás. A primeira peça montada neste projeto, há dois anos, foi Barrela, texto que Plínio Marcos escreveu com 22 anos de idade. Antes de adoecer, Plínio Marcos chegou a acompanhar os ensaios e a temporada de Barrela dirigida por mim. Juntos decidimos que Abajur Lilás seria o próximo.
É por isso que você afirma que Abajur Lilás é a estréia mais esperada do festival?
E também porque o Plínio acabou de nos deixar (N.R: o dramaturgo morreu em novembro de 1999) e isso nos entristece muito porque ele era um homem muito ativo... Ele não era um dramaturgo que ficava em casa esperando que se montassem suas peças, muito pelo contrário, ia para as ruas vender seus próprios livros. Acho que Abajur Lilás é o espetáculo mais esperado do festival por esse sentimento de homenagem, pela oportunidade de trazer tão grandiosa obra para o festival. Ela é também uma peça tão esperada por estar trazendo a Esther Góes, que é uma atriz admirável... Eu cresci vendo-a interpretar... Agora, colocá-la em cena fazendo uma personagem de Plínio Marcos, uma destas decadentes e maravilhosas prostitutas que o Plínio soube construir tão bem, é maravilhoso...
Plínio Marcos era um especialista em criar mulheres?
Ele traçou perfis femininos fabulosos... As mulheres do Plínio são de uma beleza, de uma grandiosidade, de uma resistência humana... Elas têm um poder absoluto de romper o mundo.
A Esther Góes já havia participado da leitura de Abajur Lilás no aniversário de morte de Plínio Marcos...
Sim, ela vem participando do projeto desde o ano passado. Eu a considero uma parceira guerreira, porque até hoje encontramos um grande preconceito para montar Plínio Marcos... Querendo ou não, o título de maldito o perseguiu para sempre e ele é um desafio muito grande para qualquer ator e para qualquer diretor. Se você não está despojado em cena, não há como realizá-lo, porque ele é objetivo, direto e cru. Não tem um rococó que faça com que suas intenções sejam superficiais ou sutis, muito pelo contrário... Se o ator não é inteiro, verdadeiro e se não está desnudo para fazer isto, acaba fazendo um Plínio Marcos de butique. Tem que ter muita maturidade... É por isso que todos os atores do elenco tem grande maturidade na carreira e na vida pessoal. E a Esther foi alguém que trouxe uma verdade muito grande para esse projeto.
Como era a sua relação com Plínio Marcos?
Nós ficamos muito amigos na fase final da vida dele, quando eu estava montando Barrela. Ele vinha aos ensaios e chegou a estar presente na estréia, mas foi proibido pelo médico de assistí-la, para evitar fortes emoções. Então, ele ficou deitado num divã, apenas ouvindo o espetáculo. Quando acabou, ele disse que apesar de não ter visto sabia que estava ótimo. Ele nunca perdeu seu forte senso de humor.


