DivulgaçãoFilme acompanha os passos da mulher ambiciosa que foi prostituta, artista de rádio e cinema antes de se casar com PerónA Academia não quis conversa e sem qualquer cerimônia esnobou ‘‘Evita’’, que na pré-estréia mundial de gala, em dezembro, era tido como o filme que mais indicações receberia para o Oscar que vai ser entregue na noite de 24 de março. A superprodução da Hollywood Pictures, subsidiária ‘‘adulta’’ dos estúdios Disney, acabou melancolicamente com apenas duas nominações: melhor fotografia (Darius Khondji, de ‘‘Beleza Roubada ’’ e ‘‘Antes da Chuva’’) e direção de arte (Brian Morris). O consolo foi o Globo de Ouro dado recentemente a Madonna como melhor atriz do ano passado. Sem o brilho frívolo e a resplandescência comercial do Oscar, o prêmio é importante reconhecimento do trabalho artístico, e nos últimos anos passou a ter considerável peso também como apelo de mídia, visando consumo mais amplo da personalidade ou do produto agraciados.
A ópera, no princípio Não custa repetir, advertindo: ‘‘Evita’’(veja programação de cinema na página 3) é um musical. Não é um filme com diálogos e músicas; é um filme com diálogos em música. E dificilmente poderia ter outro tratamento. Baseado em parte no musical inglês do mesmo nome, da multipremiada dupla Andrew Lloyd Weber e Tim Rice (‘‘Jesus Christ Superstar’’) , ‘‘Evita’’ é ainda hoje um dos maiores sucessos da história dos palcos londrinos (2.900 vezes, no West End ). Seu formato na montagem original foi de ópera contemporânea. E a propósito, antes de ser montagem e encenada, ‘‘Evita’’ surgiu como álbum lançado em Londres em novembro de l976, ficando meses nas paradas da Inglaterra - mesmo sendo um musical ainda não produzido. Na primeira versão de ‘‘Don’t Cry for me Argentina’’, a cantora era Julie Covington.
O cinema fatalmente voltaria sua atenção para o mega-sucesso. Em 79, o produtor Robert Stigwood, nome que desde logo se associa à realização de musicais (‘‘Hair, ‘‘Oh! Calcutta’’, ‘‘Tommy’’), convidou o diretor Alan Parker para assistir à estréia norte-americana de ‘‘Evita’’. E esticou o convite para juntos realizarem uma versão cinematográfica. Apesar de já familiarizado com o gênero depois de ter conduzido com brilho um bando de crianças numa paródia musical dos filmes de gangsters em ‘‘Quando as Metralhadoras Cospem’’, e de estar naquele momento dirigindo ‘‘Fama’’, Parker disse não. Mas nos 15 anos seguintes não pensou em outra coisa, até receber o convite definitivo. O roteiro foi escrito a quatro mãos com Oliver Stone. Havia dinheiro - 60 milhões de dólares - mas faltava o elenco, isto é, faltava Evita. Que em princípio seria Michelle Pfeiffer. A atriz acabou se afastando do projeto por causa dos dois filhos pequenos, para felicidade da insistente Madonna, que promoveu verdadeiro assédio artístico a Parker, mandando cartas onde jurava lealdade e disponibilidade. O cineasta, afinal, confessa não ter se arrependido da escolha. De fato, se ‘‘Evita’’ carrega alguma unanimidade, esta é Madonna, que humildemente andou expandindo seu alcance vocal depois de vários meses de estudo e preparação com uma professora em Nova York. Jonathan Pryce como Perón, segundo Parker, foi uma escolha lógica e feliz: o ator, um dos grandes da atual cena inglesa, também mostrou-se capaz de cantar bem, o que já havia feito no musical ‘‘Miss Saigon’’. E Antonio Banderas, como o narrador Che, acabou convencendo o diretor depois de cantar para ele em público, na mesa de um restaurante em Miami, algumas canções do musical. E quem se lembra da abertura de ‘‘Desperado - Balada de um Pistoleiro’’, de Robert Rodriguez, sabe que o espanhol tem uma voz bastante razoável.
Os argentinos e Evita Passando em revista nossa história política, em qualquer tempo, não se encontra aqui correspondência para o mito Eva Perón e seu significado no inconsciente coletivo dos argentinos. A obsessão portenha por seus ícones é sempre maior, mais abrangente e abrasiva, dominada e dominadora, não raro temperada pela tragédia que dissemina o vírus da orfandade irrecuperável. Na Argentina, cultura e paixão andam sempre juntas. E é essa combinação explosiva que explica (ou não) a agressiva recepção ao filme em Buenos Aires, semana passada. Manifestações, ameaças de censura, interdição e boicote, declarações raivosas da vice-presidência. Um clamor cego e surdo contra um produto que, antes de tudo, procurou distanciar-se do musical e ser fiel aos fatos e à trajetória de um personagem que nem mesmo os argentinos parecem conhecer muito bem. Se não todos, pelo menos boa parte deles.
O filme reconstitui os últimos três anos da vida de Eva Perón, aliás Maria Eva Ibarguren, mulher de origem camponesa, filha ilegítima de um capataz de fazenda e uma doméstica. Em ‘‘Evita’’, quem narra a história do personagem em 140 minutos diretamente para o espectador é Che, cínico homem do povo desprovido de qualquer cunho histórico (ele é Ernesto Che Guevara) , cronista brechtiano que fala sobre destino e fé. O filme acompanha os passos desta mulher ambiciosa que foi prostituta, artista de rádio e cinema antes de conhecer, se apaixonar e se casar com o político e líder popular , Coronel Juan Domingo Perón, que se torna presidente da Argentina em 1946, graças aos sindicatos trabalhistas. Inicialmente para impressionar e fazer-se aceita pela sociedade, como primeira-dama Eva enfrenta com determinação e muito dinheiro as injustiças sociais. Aos poucos, a obra vai mostrando resultados. Sua fama e popularidade crescem, a ponto de transformar-se aos olhos dos ‘‘descamisados’’ numa espécie de santa. Mas inimigos também não faltam, principalmente no exército. Renuncia à candidatura à vice-presidência, apesar do incondicional apoio de milhões de trabalhadores. E é atingida por um câncer uterino, que vai matá-la em 26 de julho de 1952, depois de nove meses de sofrimento e agonia. Tinha apenas 33 anos de idade.
No início dos anos 70, Juan Domingo Perón voltou à Argentina depois de um exílio na Espanha e trouxe a tiracolo sua outra mulher, Maria Estela ‘‘Isabelita’’ Martinez. Eleito presidente, Perón não ficou muito no poder. Morreu em 74. Isabelita, vice, assumiu, e em nome do peronismo tentou conquistar o coração dos argentinos. Presa pelos comandantes do exército, o máximo que conseguiu foi que o país caminhasse para um golpe militar que mergulhou o país na mais feroz ditadura do continente nos últimos tempos. Mas esta já é outra história, a que ‘‘Evita’’ não se refere. E de resto, nem é material que justifique qualquer tentativa para um ‘‘A Volta de Perón’’. Ou, o que seria pior, ‘‘Isabelita’’.

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