Não faz muito tempo, exatamente lá pela metade dos anos 1970, o cinema havia perdido quase toda sua capacidade mágica para transportar o espectador a paraísos sonhados, para viver as mais excitantes aventuras e, definitivamente, para ser um espetáculo de massas como tinha sido na época dourada da galáxia hollywoodiana. Naquele momento, a televisão se impunha como único veículo de entretenimento e a maltratada indústria cinematográfica sobrevivia aos trancos.
  Mas em 1977 tudo isso mudou profunda e repentinamente, quando um jovem e um velho, ajudados por dois robôs, partiram de um planeta desértico para salvar uma princesa nos confins do universo. A história, chamada ‘‘Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança’’, mexeu com o mundo inteiro, e pela primeira vez em muito tempo, as pessoas saiam dos cinemas e voltavam às filas para a sessão seguinte. Um jovem chamado George Lucas tinha oferecido a todos aquilo que estavam precisando para voltar à sala escura e esquecer durante horas suas tristezas e preocupações. E além disso o filme, nunca é demais lembrar, deu uma guinada vital na trajetória da indústria do filme americano, mais precisamente devolvendo à ela seu status de gigante que andava seriamente comprometido.
  O resto é história, e bem conhecida através da hiperbólica trama costurada entre os seguimentos seguintes: ‘‘Episódio V - O Império Contra-Ataca’’ (1980), ‘‘Episódio VI - O Retorno do Jedi’’ (1983), ‘‘Episódio I - A Ameaça Fantasma’’ (1999), ‘‘Episódio II - O Ataque dos Clones’’ e finalmente este ‘‘Episódio III - A Vingança dos Sith’’, que está entrando hoje em mega-lançamento em milhares de salas de todos os continentes - só no Brasil são 433 cópias (391 legendadas, 39 dubladas e 3 digitais). O londrinense terá cinco salas à disposição: quatro no Catuaí (duas cópias, uma legendada e outra dublada), e uma original com legendas no Royal Plaza (confira salas e horários na programação de cinema na página 2).
  No último domingo, em entrevista coletiva no Festival de Cannes, logo após a première mundial do filme na maior vitrine que qualquer realizador poderia desejar, George Lucas tentou imprimir à realização um forte significado político e contemporâneo, enfatizando que sua história (toda ela, no conjunto) é uma espécie de alerta a respeito de como as democracias podem se tornar cruéis ditaduras. Lucas, com certeza um diretor independente e liberal, no entanto não pode confundir seu papel de puro ‘‘entertainer’’ com o de um pensador político, o que ele definitivamente não é, nem mesmo quando fala obviedades.
  O fato de ‘‘A Vingança dos Sith’’ estar alguns furos acima dos dois filmes imediatamente anteriores dessa segunda trilogia que de fato é a primeira - cabe ao cinéfilo colocar agora a casa em ordem, recorrendo às locadoras - não autoriza maiores entusiasmos. Digamos que as coisas foram consertadas a tempo depois da espessa nebulosidade de ‘‘A Ameaça...’’ e ‘‘O Ataque...’’
  Para uma conexão cósmica. Depois de muitos anos de luta, as Guerras Clônicas estão por terminar. O Conselho Jedi mandou Obi-Wan dar um jeito no General Grievous, o líder dos andróides separatistas. Ao mesmo tempo, Palpatine cresceu em poder, promovendo mudanças que levam a República a se converter no Império Galático. Além disso, Papaltine revela a seu aliado mais próximo, o jovem Anakin Skywalker, a verdadeira natureza de seu poder e lhe oferece os reais segredos da Força para levá-lo ao lado escuro.
  E é disso que trata mais uma vez ‘‘Star Wars’’ (entre outras coisas, em escala mais discreta): a linha fina que separa Bem do Mal, tão fina que nem mesmo o Eleito (o Messias ?, o anjo caído ?) está a salvo de não ultrapassá-la e transformar-se no terror em estado puro. Lucas tem sempre um longo rol de influências para se socorrer, mesclando princípios cristãos básicos e orientais. Nada muito sustentável, mas esse lado místico é uma presença forte, há essa religiosidade que imprime solenidade à narrativa pontificada pelos coros sacros arranjados pela musica de John Williams. Há também a hierarquia entre mestres e discípulos que se amam e se odeiam. Há ainda códigos de honra. Há o trágico romance.
  E há ainda...bem, há todo o envolvimento espetacular que fez de George Lucas o maior e mais bem remunerado mago do escapismo que o mundo do show business jamais conheceu. E se não fosse pelos pacotes encantados que criou e ofereceu ao longo das últimas três décadas, sua permanente contribuição ao desenvolvimento da tecnologia visual e sonora bastaria para assegurar a ele um lugar permanente no firmamento artístico.

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