Nem só de ficção vive o cinema. Pelo contrário. Nos últimos tempos, a constante, forte presença do documentário reafirma o ressurgimento deste gênero que até duas décadas atrás era tido como ''menor'', ou então pejorativamente carimbado como ''filme de natureza''. Algo ''muito chato'', sobre curiosidades turísticas e/ou científicas, apenas tolerado e quando muito na tevê com o controle remoto sempre à mão. Bem, isto acabou. Os documentaristas tomaram o partido do mundo, da contemporaneidade. Descobriram que o homem tem problemas, muitos problemas a enfrentar, e sem demora. Individuais e coletivos. E de modo geral não sabe como ou por onde começar.
Continuaram a falar da natureza, mas acionaram o sinal de alerta. Tudo muito bonito, em todos os continentes, mas infelizmente com prazo de validade. Os bichos podem acabar, lembram agora os cineastas. Porque o meio ambiente está se esgotando, envenenado, deteriorado, quente em progressão. E se eles acabarem, bichos e habitat, o bicho-homem acaba junto.
''Uma Verdade Inconveniente'', que estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2), é filme que está dando muito que falar, desde sua estréia-impacto há um ano, no Festival de Sundance, de onde saiu consagrado. O triunfo se repetiu meses depois no Festival de Cannes.
O documentário, apresentando como uma sofisticada mas muito acessível sessão de ''powerpoint'', inclusive com direito à divertida animação, é uma destas lições que ninguém deve perder. Fala do planeta, da urgência em salvá-lo - só nos restariam dez anos para tentar reverter o quadro ?! Dá nome aos responsáveis. Números, dados estatísticos, gráficos comparativos. Fatos, não ficção. Imagens contundentes. Exemplos aterradores. Registros óbvios que muitos não querem ver. Ou preferem não ver. Não é irresponsavelmente alarmista. É verdadeiramente alarmante. Se alguém me perguntasse: você já viu um documentário de terror ? Resposta pronta: é este, sem dúvida. A ante-sala do Apocalipse. O dia D de destruição, depois de amanhã, ao vivo e em dores.
Dirigido por Davis Guggenheim, o filme tem dois protagonistas. Um, o ex-vice-presidente e ex-candidato derrotado à presidência dos EUA, Al Gore, mediante aquela fraude histórica orquestrada pelo Partido Republicano no Estado da Flórida. Bem humorado, ele se apresenta ao publico: ''Olá, sou Al Gore. Fui o próximo presidente dos Estados Unidos''. O outro personagem, a nossa velha, cansada, abatida Terra.
Gore, ferrenho ativista/ambientalista desde muito antes de ser político profissional, carrega na bagagem por aí afora, já há cinco anos, uma conferência multimídia. É sobre uma bomba de ação retardada. É o colapso climático total, a catástrofe planetária a partir de perturbações meteorológicas extremas como inundações e longos períodos de seca agravados por mortíferas ondas de calor.
Ele aponta a gravidade do aquecimento global apoiado em argumentação sólida e atraente, alternada com sequências intimistas que revelam sua dimensão humanista. O filme é de 2006, bem recente a ponto de incluir tragédias de ontem como a de New Orleans arrasada pelo furacão Katrina. Se Gore continuar na estrada, e nada for feito em relação à suas denúncias, os dados mostrados de forma tão didática em ''An Inconvenient Truth'' fatalmente estarão em contínua desatualização.
Esta catástrofe já com timer acionado e espectro de ação sem precedentes é unicamente responsabilidade nossa, enfatiza ele. E evitá-la em sua totalidade também o é. O filme opta por ilustrar a ação e o combate apaixonado de um homem que há anos batalha sem tréguas para persuadir não só os Estados Unidos - país que mais contamina o meio ambiente -, mas também o resto do mundo, sobre a necessidade premente de reagir a esta crise. A conferencia que ele ministra para platéias de todos os quadrantes da Terra é a espinha dorsal do filme.
Gore foi pessoalmente ao Festival de Cannes, e lá participou da coletiva após a exibição do filme. Sua postura e sua campanha agora são outras. Nada de cargo eletivo, nenhuma ambição a não ser a de pedir muita vontade política a quem detém o poder ou detém a capacidade de mudá-lo de mãos. Na tela, o mestre de cerimônias deste quase filme-catástrofe apresenta o problema com força, em tom didático às vezes, sério em muitos momentos, dramático em outros e às vezes irônico.
Em seu discurso não há lugar para mágoas políticas. São águas passadas. As outras águas, presentes e futuras em consequência do degelo, estas são sua preocupação imediata. Ele fala com convicção, com entrega. Por isso o filme afeta públicos muito distintos, de conservadores a liberais, de reacionários a democratas, de aflitos a acomodados. Porque o apelo contido é universal. Ponto básico de sobrevivência.
A questão prática e providencial que se coloca será garantir a exibição deste ''Uma Verdade Inconveniente''. Primeiro nas salas de cinema. Depois nos canais abertos e fechados, nas escolas, chegando às locadoras, associações civis, universidades, praças públicas, periferia das cidades. Nas paredes e nos muros, onde houver um espaço qualquer para colocar o alerta. Na consciência dos homens, quem sabe, especialmente os de má vontade, velhos ou novos conhecidos.

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