Estreia em Londrina, um 'Brutalista' para não esquecer
Filme em estreia nacional aborda a situação do trabalhador migrante, a meritocracia e a falácia do 'american dream'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Filme em estreia nacional aborda a situação do trabalhador migrante, a meritocracia e a falácia do 'american dream'
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 
Neste fim de semana chega às salas brasileiras um dos filmes mais esperados desta safra do Oscar, já que é um dos mais capacitados favoritos. Trata-se de “O Brutalista”, com 214 minutos divididos em dois grandes blocos com intervalo de 15 minutos (é a primeira produção a recorrer a esta prática desde “Os Oito Odiados”, em 2015). O jovem Brady Corbet, diretor e co-roteirista com sua companheira Mona Fastvold, se afasta de suas propostas anteriores para estabelecer um novo marco na carreira.
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“The Brutalist” é um murro bem na cara do sonho americano, mostrando o entusiasmo de todos os migrantes que chegaram e como aquela ideia do anfitrião solidário vendida durante tantos anos não é verdadeira. O protagonista, um arquiteto interpretado de forma contundente por Adrien Brody, foge do campo de concentração para alcançar em outras terras, onde estão agora amontoados trabalhadores precários (todos estrangeiros ou negros) em cuja força de trabalho começa a crescer a próspera economia dos Estados Unidos.
Corbet contrasta formatos e materiais, e apresenta noticiários e publicidade que mostram a grande situação da economia e a confrontam com o sofrimento de quem trabalha para que outros possam enriquecer. “O Brutalista” não é uma obra sobre o típico trabalhador migrante, mas prefere concentrar-se numa pessoa cujo talento e esforço deveriam, se a meritocracia e o american dream não fossem uma falácia, tê-lo feito ter um sucesso brilhante. Aqui o seu talento confronta quem tem o dinheiro, o ego caprichoso e solto de um magnata que se mostra um amante da arte e da arquitetura mas que é capaz de pedir um centavo que cai no chão para não perder este único centavo.
BRUTALISMO
O filme, que vai de 1947 a 1980, acompanha a jornada desse personagem através de sua ascensão como criador e sua luta para criar sua obra-prima. Não é por acaso que este arquiteto é um representante do Brutalismo, um movimento artístico ligado ao socialismo e à criação de edifícios para a comunidade em oposição ao individualismo.
Apesar do talento, o migrante, para se adaptar, deve renunciar à sua identidade e às suas tradições. Vemos isso no primo do protagonista, que abandona o judaísmo para se casar com uma católica; e vemos isso quando a mulher mostra seu excelente inglês e concorda em ser chamada por uma versão em inglês de seu nome. É claro que eles devem abandonar a sua própria língua. É a forma de apagar as raízes como única forma de fazer parte delas. Qualquer semelhança...

Tal como em seus filmes anteriores, o realizador Brady Corbet volta a lançar um olhar profundamente crítico sobre a sociedade dos EUA, que olha de forma aberta e com uma altura estética admirável : em “A Infância de Um Líder”, através de uma distopia totalitária, cujo germe escolhe a família de um diplomata americano durante a Grande Guerra; em “Vox Lux”, baseado no consumismo de uma sociedade que procria estrelas pop junto com crianças psicopatas que atiram em seus colegas. E com “O Brutalista”, Corbet vira a Estátua da Liberdade de cabeça para baixo.
O filme não tem esta metragem à toa, por mero capricho. Nesta duração estão embutidas razões diversas e muito ricas, ideias e formas que convivem em harmonia que há muito tempo o cinema não proporcionava em termos de prazer/deleite estético e intelectual. Especialmente a certo segmento de cinefilia mais estudiosa e carente de atualizações (e provocações) que aqui se oferecem.


