O diretor grego, que faz do cinema espaço para provocações absurdas sobre a condição humana, está bem longe da delícia formal e narrativa de “Pobres Criaturas”.

Recicla-me ou te devoro. Com este jogo de palavras que me ocorre agora, reescrevo e resgato neste texto crítico o famoso enigma da Esfinge da mitologia grega, “decifra-me ou te devoro”; mas dando a ele nova função, mais 'up to date', já que decifrar o cineasta Yorgos Lanthimos – também grego como o Sófocles de “Édipo Rei” – não é mais o caso, a esta altura da excêntrica filmografia dele. Em "Bugonia", a partir desta quinta-feira (27) em estreia em Londrina, Lanthimos revisita suas obsessões com poder, manipulação e natureza humana, protagonizadas por Emma Stone e Jesse Plemons à frente do elenco.

O filme mergulha em um jogo de conspirações digitais e delírios coletivos, mas acaba aprisionado por seu próprio artifício.

Este 2025 parece ser o ano em que o cinema ousa confrontar os eventos atuais, persistindo em temas de paranoia, conspirações e hierarquias de poder que são fortalecidas pela modernidade e suas ferramentas digitais. “Bugonia” trata disso, desse território onde as mídias sociais não são mais um reflexo, mas o próprio fundamento da realidade contemporânea.

Desde 2005, quando iniciou sua carreira, o cineasta ateniense vem se dedicando aos desconfortos e aos aspectos mais ferozes da humanidade. Neste momento, porém, seu olhar parece menos incisivo, preso à superfície de seu próprio estilo.

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A trama gira em torno de Teddy (Jesse Plemons), um funcionário obcecado por teorias da conspiração, convencido de que sua chefe, uma CEO da indústria farmacêutica interpretada por Emma Stone, é uma alienígena infiltrada na Terra para dominar a humanidade. E exterminar as abelhas. Isso mesmo, abelhas. Sua fonte: Reddit, isto é, o coração da Internet, algorítmos e as esquinas mais tóxicas do ecossistema digital.

Com a ajuda de um primo, Teddy elabora um plano para sequestrá-la e expô-la, convicto de que sua missão salvará o planeta. A premissa, baseada em um filme chinês, ressoa com as realidades contemporâneas: prédios corporativos, cidades industriais abandonadas e tecnologia de ponta ilustram uma América fragmentada e sem esperança.

REVISITANDO TEMAS

Lanthimos revisita seus próprios temas: manipulação corporativa, os erros do presente, os ciclos viciosos do poder. O jogo narrativo que ele faz com a questão de se a personagem de Stone é ou não uma alienígena é até estimulante, embora o roteiro (que estranhamente não é dele) , não consiga explorar todo o seu potencial. As atuações, embora eficazes, sustentam personagens pouco desenvolvidos. A fisicalidade domina as palavras, e o texto carece de profundidade. O espectador fica em suspense, sem saber ao certo por que deveria se envolver emocionalmente com as motivações ou ações dos personagens.

Em "Bugonia", o diretor grego Yorgos Lanthimos retoma temas como manipulação e natureza humana
Em "Bugonia", o diretor grego Yorgos Lanthimos retoma temas como manipulação e natureza humana | Foto: Divulgação

"Bugonia" confirma uma suspeita: Lanthimos vem se tornando refém do próprio sucesso. A provocação visual está substituindo o significado. Seu cinema, antes carregado de tensão moral e ambiguidade, agora parece domesticado pela indústria que o tornou famoso. Há cenas – como a tortura elétrica de Teddy contra a CEO – em que a tensão promete atingir o clímax, mas a direção não consegue recapturar a intensidade dos trabalhos tão bem conseguidos em “O Sacrifício do Cervo Sagrado” ou “A Lagosta” , ou o mais recente “Pobres Criaturas”. Suas imagens visuais deslumbram, mas chegam ao espectador desprovidas de significado. Teria sido preferível se continuássemos a decifrá-lo, e de preferência livre dessa reciclagem empobrecedora.

O final, acompanhado por música poderosa e atuações mais contidas, salva a experiência como um todo No entanto, o filme parece mais uma provocação previsível, um gesto autoconsciente que já não surpreende. Lanthimos, que até há bem pouco tempo desafiava o espectador com ideias incômodas, agora entrega uma narrativa previsível, preso à estética do sucesso. Em sua tentativa de expor o corporativismo, acaba sendo vítima da própria máquina.

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