São Paulo, 08 (AE) - Com "Paixão Perdida", que estréia amanhã (09) na cidade, o diretor Walter Hugo Khouri chega ao seu 25.º longa-metragem. Façanha rara, dada a descontinuidade do cinema nacional enquanto processo produtivo. Proeza tanto maior quando se pensa que Khouri tem na prateleira "As Feras", outro longa pronto e à espera de lançamento. E ainda mais considerando-se que, com poucas exceções, esses filmes todos expressam um legítimo pensamento autoral. Quer dizer, Khouri é um artista que, bem ou mal, coloca-se certos problemas e busca respostas para eles.
A posição de Khouri é excêntrica em relação às formas dominantes do cinema nacional. Na época politizada do Cinema Novo já fazia seus filmes intimistas, com personagens mergulhados no vácuo existencial moderno e buscando no sexo uma forma improvável de purificação, quando não de ascese. Em 1964, quando o Brasil vivia sob o impacto recente de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" ou "Vidas Secas", Khouri lançava seu melhor filme, "Noite Vazia". História de uma dupla de playboys (Mário Benvenutti e Gabrielle Tinti) que saem com duas prostitutas (Norma Bengell e Odete Lara) tentando uma via de escape para suas vidas idiotas. Foi chamado de alienado, como se a discussão da seca e da questão agrária não pudesse conviver com os chamados males da alma.
Talvez uma época de rarefação ideológica seja mais receptiva a um filme como "Paixão Perdida". No centro da história escrita por Khouri vegeta o menino Marcelinho (Fausto Carmona). Ele se tornou incapaz de qualquer reação depois da morte da mãe (Maitê Proença, sempre evocada em flash-back) em um acidente. Seu pai, Marcelo (Antonio Fagundes) é homem de personalidade forte, rico, viajado, mulherengo. Atualmente, namora a fútil e insegura Ruth (Paula Burlamarque) e tem uma filha, Berenice (Andréa Dietrich), que vive mais no exterior do que no Brasil. Banalidade - A história começa com a chegada à casa de Anna (Mylla Christie), candidata a enfermeira e acompanhante de Marcelinho. Ela passa a ser instruída sobre os usos e costumes da família pela governante da mansão, Matilde (Zezeh Barbosa). Anna, uma doce criatura, começa a exercer influência benéfica sobre Marcelinho. Mas o pai do garoto também se interessa pela moça. É isso, e pouca coisa mais. "Paixão Perdida", na verdade
não tem história, no sentido convencional do termo. Ou, por outro lado, baseia-se na mais banal das histórias, a de Édipo, imortalizada por Sófocles e universalizada por Freud, dois mil e tantos anos depois.
Na estrutura montada por Khouri, o complexo de Édipo de Marcelinho dá-se em dois tempos. Com a mãe, num primeiro momento
com sua substituta, Anna, no segundo. Nos dois, alguma presença limitadora (e, no caso, traumática) a impedir o acesso ao objeto de desejo. A presença do pai, que funciona desse jeito mesmo e por isso encarna a função normativa da sociedade, e da morte, a limitação absoluta e radical ao desejo humano.
A montagem proposta por Khouri para encenar esse drama é curiosa. Marcelinho está no centro de tudo. Mas é um centro vazio, por assim dizer. Não age, porque não fala nem se mexe, mas todos se distribuem em torno dele. Agem em seu nome. Há, por contraposição, a figura paterna, superativa. Marcelo, o garanhão sempre presente nos filmes de Khouri, é o pólo de atração exercido sobre o mundo feminino que gira em sua volta. Marcelo existe no ciúme da namorada, no cuidado algo incestuoso da filha
no desejo da enfermeira do filho.
O desafio para o cineasta está em sustentar essa armação praticamente sem trama apenas pelo jogo virtual de desejos. E, nesse ponto, é preciso reconhecer o talento de Walter Hugo Khouri. Dificilmente encontra-se um cineasta que filme com tanto ardor o desejo humano. Não se está falando da realização sexual, do ato em si, mas de tudo aquilo que o precede, do impulso para ele. É um cinema que passa a câmera pelos olhos dos atores, mas principalmente das atrizes. Acompanha e tenta captar a essência desse movimento visual que resume a essência mesma do desejo humano. Nesse sentido, nem mesmo Marcelinho é inerte. É com seu olhar que responde ao olhar da mãe ausente e ao de Anna.
Esse belo filme de climas e subentendidos fica prejudicado justamente quando o diálogo aparece em excesso. É assim no começo, com a longa e cansativa conversa entre a governanta e a empregada recém-contratada. Toda a história é resumida, como se, naquele estágio da filmagem, o diretor temesse ser muito obscuro. Um engano, porque a trama é auto-explicativa para qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade.
Melhora muito no miolo, quando as tensões sexuais encontram-se em seu grau máximo, embora sempre latentes. Volta a cair no final, quando um fecho indeciso revela menos a vontade de terminar com um acorde dissonante e mais a falta de inspiração que poderia dar à trama um epílogo digno desse nome. Falta a esse Édipo moderno o tônus trágico que o caracteriza desde a antiguidade.

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