Termina domingo no Rio, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a mais completa retrospectiva do cineasta Ruy Guerra já vista no país. Material iconográfico conhecido ou inédito e exibição de filmes, memória farta da carreira deste moçambicano que há décadas adotou o Brasil, realizando aqui (mas não apenas) a maioria de seus títulos, todos com amplo trânsito e reconhecimento internacional do clássico do Cinema Novo ''Os Fuzis'' a este ''O Veneno da Madrugada'', que estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
É a quarta vez que Ruy Guerra faz parceria com o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. Aqui ele adaptou ''La Mala Hora'', texto mais velho e ainda não possuído daquele realismo mágico de ''Cem Anos de Solidão'', a locomotiva da obra de Márquez que daria a ele o Prêmio Nobel. No livro o tratamento é sóbrio, linear, ainda sem aquela exuberância da narrativa encantada pelos personagens de ''Cem Anos...''
Mas Ruy Guerra sentiu que sua adaptação poderia ser, digamos, premonitória daquele universo de Macondo. O povoado de ''O Veneno da Madrugada'' é uma pré-Macondo. Ali, durante um lapso de tempo definido, transcorre a ação. Ou as ações. Ou as três versões da mesma ação, onde o tempo assume papel decisivo. Cartas anônimas espalham boatos e desconfianças, fazem denúncias, delatam, revelam segredos familiares, contam maledicências. Um crime na noite, muitos suspeitos. Chuva que nunca acaba, molhando corpos e encharcando a alma de seres que vivem na sombra, com medo.
Ruy, amigo de Márquez, tomou liberdades com o escritor. Dialoga com o autor de ''O Amor nos Tempos do Cólera'' (filme já em fase de pós produção) sem ser subserviente, pelo contrário, assumindo até uma certa co-autoria. Márquez não deve ter se importado. Quem conhece sua literatura vai encontrar a trama intacta, mas através da ótica da releitura do diretor de ''Erendira''. Não é um filme fácil, nem está isento de reparos. Mas é sempre estimulante ver um exercício de cinema que ousa trafegar na contramão das inócuas facilidades e superficialidade do bom-mocismo à americana. Causam deslumbramento a fotografia de Walter Carvalho e a direção de arte de Marcos Flacksman.

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