Anote em sua agenda e confira depois: não importa o seu nível de exigência, você vai gostar de ''Homem-Aranha 2'' e não vai se odiar na manhã seguinte. Seguindo a atual, incomum e providencial tendência hollywoodiana de melhorar a descendência de produções recentes ''Harry Potter 3'', ''Senhor dos Anéis 3'', ''X-Man 2'' , o filme é superior à primeira parte lançada há dois anos. E não se trata apenas de superioridade orçamentária (130 para 200 milhões de dólares), de box-office (o primeiro rendeu 470 milhões, este deve superar com sobras esta marca somente nos EUA) ou quanto à extensão do circuito planetário mapeado para o lançamento simultâneo entre 30 de junho e 31 de julho.
''Homem-Aranha 2'', que a partir de hoje enlaça 612 salas de exibição em território brasileiro (confira a programação de cinema na página 2), tem um sólido roteiro (o veterano Alvin Sargent, acertando na mosca) em cima de uma boa história, uma direção inteligente, personagens bem desenhados e melhor ainda desenvolvidos e uma quota de necessária mas não obscura complexidade. Ah, sim, e a dosagem de ação sob medida, com aquela difícil, mas não impossível capacidade de bem gerenciar a parafernália de efeitos, sem que esta intimide as boas idéias. É um filme ambicioso, com certeza, mas por onde quer que tenha se metido em termos de assumir riscos diante da mitologia que cerca o personagem, ''Homem-Aranha 2'' se sai tranquilamente da empreitada. É como se o super-herói da façanha fosse o diretor Sam Raimi.
Peter Parker, o (anti) herói. Ele ainda é um garoto. Aliás, quando Tobey Maguire, tiver 70 anos, ainda vai parecer um garoto, com esse olhar entre ansioso e entorpecido, voz quase trêmula, sempre inerte, calculada iminência de sair do lugar, adolescente cercado de contradições íntimas, dúvidas existenciais, ser ou não ser, destino, essas coisas, pronto para ser adotado incondicionalmente pela platéia imagine só, descobrir na lavanderia que o traje de Homem-Aranha desbota... Além do mais, ele ainda está apaixonado. Continua morando com a tia (Rosemary Harris), e seu coração ainda estremece pela garota da porta ao lado. Só que Mary Jane Watson (Kirsten Dunst, elogiável) já não mora nas redondezas, e agora é modelo e atriz. Segue a trama bem urdida, que não abre mão da releitura do eterno dilema do super-herói, que deve sacrificar suas necessidades mundanas em favor de uma missão de alcance universal. Surge o tentacular vilão, o Dr. Otto Octavius (um calibrado Alfred Molina), cientista de prestígio que agora carrega literalmente nas costas as consequências de uma experiência muito ambiciosa que fugiu ao seu controle. Apesar de sua bizarrice, ele resulta muito mais verossímil e menos estereotipado do que o vilão precedente, encarnado por Willem Dafoe.
Ao mesmo tempo filme de aventuras temperado com ação eletrizante, drama psicológico delineado com agudeza nenhuma pretensão literária, ainda bem e história romântica com toques bem dosados de humor, ''Homem-Aranha 2'' faz justiça ao charme das histórias em quadrinhos criadas há mais de quatro décadas por Stan Lee e Steve Dikto. O olhar pessoal e a capacidade de realização de um diretor como Sam Raimi, aliados ao carisma da dupla Maguire-Dunst e a valores de produção colocados a serviço de um entretenimento de personalidade marcante fazem deste ''Spider-Man 2'' o veículo adequado para abrir oficialmente a temporada de férias. E uma dica para a curtição do ócio ser ainda mais fantasiosa é a frase da infatigável tia de Peter: ''Acredito que há um herói em todos nós''.

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