DENISE DISSONANTE


As dores do brasileiro estão no espetáculo ‘‘Vozes Dissonantes’’ que Denise Stocklos estréia hoje em Curitiba
Jackeline Seglin
De Curitiba

‘‘Vozes dissonantes brasileiras que não deixam a gente se sentir como o sistema quer: dominados, reprimidos, contentes com tão pouco, com cara de bem tratado quando a situação é um horror.’’ Essas são as vozes que ecoam no novo espetáculo que a atriz Denise Stocklos apresenta hoje e amanhã, no Festival de Teatro de Curitiba. Fortes expectativas aguardam a apresentação na cidade, depois da estréia nacional em Salvador, na semana passada.
O texto faz uma reflexão, nos 500 anos do Brasil, sobre as vozes que há cinco séculos se levantaram contra a história oficial do País. O que a atriz vai mostrar ao público é o resultado de dois anos de estudos e revelações de pesquisadores, autores, poetas, enfim, pessoas que mostraram um país escondido e que buscaram novos caminhos, como Mathias Ayres, Castro Alves, Gregório de Matos, entre outros.
Para montar este espetáculo, Denise Stocklos foi orientada pelo embaixador Lauro Moreira (cônsul do Brasil), que assistiu a uma apresentação da atriz na Espanha, gostou da reação do público e sugeriu que ela falasse sobre as vozes dissonantes. ‘‘Ele me deu liberdade para compor o trabalho, mas ainda não viu o resultado’’, conta.
Stocklos já mostrou, no ano passado, suas ‘‘Vozes Dissonantes’’ em apresentações abertas nas cidades de Irati, Ponta Grossa, Cascavel e Guarapuava. Depois seguiu para Nova York – para dar aulas numa Universidade – onde reensaiou muita coisa da montagem. ‘‘Mas o espetáculo é muito novo. Dois anos não são nada para entrar na essência do tema, para que a palavra em si tenha a força que ela merece’’.
Questionada se há ressentimento neste espetáculo, Denise desabafa: ‘‘Tristeza há muita. Ressentimento não. A gente tem ódio mesmo. É ira. E negá-la, oprimi-la é o que a indústria cultural faz. A função da arte é mostrar a totalidade para que a pessoa reflita sobre a realidade. As dores brasileiras dizem respeito ao nosso amor e à nossa liberdade’’.
Sobre o processo de iniciação ao tema, Denise Stocklos diz que prefere ver como uma trajetória. ‘‘Essa liberdade de estar criando comigo mesma é parte de um projeto, que envolve Mary Stuart, Casa, Hamlet em Irati, Fax para Colombo, Desmedéia, Desobediência Civil, Vozes Dissonantes...’’
A atriz dá prosseguimento a este processo com o próximo espetáculo, que deve estrear em maio, em Nova York: ‘‘Eu faço, eu desfaço, eu refaço – Louise Bourgeois’’, sobre a artista norte-americana de 89 anos, que ‘‘faz da escultura seu encontro com a humanidade’’.

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