Há muitos anos cinema e histórias em quadrinhos mantêm uma estreita relação. E nos últimos tempos, uma relação também produtiva em efeitos cinematográficos, tanto para a difusão dos personagens das HQ como para o sucesso econômico obtido por alguns produtores. Mas a partir de ''Sin City - Cidade do Pecado'', entrando hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), todas as leituras, releituras e reescrituras já tentadas, testadas, aprovadas ou reprovadas, deverão levar em conta um novo e obrigatório referencial estético e cultural, se quiserem dar sentido à essência dos mitos focalizados.
Com roteiro e direção a quatro mãos de Robert Rodriguez e Frank Miller, este o criador da novela gráfica (nomenclatura um tanto pedante para designar as histórias em quadrinhos) homônima surgida em 1991, ''Sin City'' resultou em exercício de estilo pretensioso mas milimetricamente coerente com a proposta da dupla. Na verdade, em termos de cinema tratava-se de colocar em funcionamento toda uma engrenagem computadorizada e na qual Rodriguez parece ser um poderoso mago consumado , adequando-se a ela diferentes elementos contextuais que dariam sentido à narrativa quadrinizada. Isto é: a arquitetura dessa cidade pecaminosa que resume o pior de Nova York e Los Angeles, as atmosferas opressivas de alguns interiores, as perseguições automobilísticas, as ruas e bares de má fama, os personagens representativos de uma fauna mista, viciada e viciosa. Enfim, o entorno definitivo para ressurreição, celebração e glória do film noir, mas em chave que o antigo artesanato hollywoodiano jamais um dia chegou a suspeitar.
Os diretores, basicamente Rodriguez (ainda que reste à imaginação dos cinéfilos descobrir qual parte Quentin Tarantino dirigiu como ''convidado''), montaram cada plano do filme de acordo com o desenho das vinhetas do original. Há uma tradução do que está no papel para uma espécie de roteiro técnico que reconstitui, detalhe a detalhe, quase até a obsessão, todas as vinhetas de Miller. Rodriguez vai ainda mais longe do que foi seu compadre Tarantino em ''Pulp Ficcion - Tempo de Violência'', a fim de agregar toques expressionistas com o emprego do preto e branco com alguns salpicos de cor aqui e ali sem que em nenhum momento se encontre qualquer sinal de traição, nem ao sentido e nem às intenções do texto-base.
Além disso, Rodriguez e Miller renderam um estupendo tributo à ''novela negra'' mais intensa, à expressão mais violenta deste gênero literário vêm de imediato à lembrança dos ''pulpmaníacos'' nomes como Shell Scott e Mickey Spillane, repentinamente dotados de de uma incômoda contemporaneidade.
Entre os méritos de ''Sin City'', boa parte fica por conta do trabalho de casting que, com cuidados e acertos, pesou os nomes que compõem um elenco que se encaixa magnificamente nas necessidades da narrativa, construída com base em três histórias autônomas mas comunicantes entre si, e que requeria o gestual (ou a falta de) próprio das HQ. Justifica-se, portanto, lançar mão de atores, na maioria ícones, entre eles Bruce Willis e Mickey Rourke. Mas estão todos muito bem, cumprindo com sobras performances adequadas ao caráter físico e mental dos personagens imaginados por Miller: Elijah Wood, Clive Owen, Jéssica Alba, Benicio Del Toro, Rutger Hauer, Michael Madsen, Brittany Murphy e Rosario Dawson.
É possível afirmar que há um antes e um depois no trabalho de Robert Rodriguez. Este texano inquieto, talentoso e surpreendente é dele a fantasia infanto-juvenil ''Shark boy e Lava Girl'' em exibição na cidade leva o espectador a compartilhar suas obsessões, entre elas a extremada estilização utilizada para narrar ôSin City. É um cineasta com maneirismos, com certeza, alguém capaz de criar uma realidade que é de parte alguma e de todas as partes. Com necessário radicalismo, ''Sin City'' resume o melhor dos relatos do ''noir'', sejam ou não provenientes das HQ, da literatura ou da cinematografia. Sem abandonar seu lado lúdico, Rodriguez transmite aqui um crescimento que muitos esperavam há tempos.

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