Estratégias de guerrilha artística
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de janeiro de 2002
Rubens Pileggi 
A arte, ou melhor, o conceito de arte tem sofrido transformações tão profundas desde o dadaismo, no começo do século passado, que já não é mais possível categorizar qual o espaço que cabe à arte hoje em dia, uma vez que seu acontecimento não se restringe mais somente àquelas instituições criadas para abrigá-la.
No manifesto Arte depois da filosofia, do final dos anos 60, Joseph Kossut questiona a história da arte e propõe uma linguagem que passe a ser também crítica da arte, voltando-se contra o sistema de objetos criados para o mercado e desmontando pensamentos enraizados sobre o fazer artístico.
Na virada das décadas de 60 para 70 movimentos como a arte ambiental, land art e mesmo o pós minimalismo, o tropicalismo e outros de vanguarda propunham estilhaçar de vez com o padrão formatado para os espaços expositivos, alterando não só os materiais até então comumente usados, como a própria idéia que se tinha sobre a arte, seu fazer e seu lugar no mundo. Com a criação artística ligada a outras disciplinas, como a psicologia, por exemplo, ou ao meio ambiente, muitos artistas faziam seu trabalho em lugares íngremes, de difícil acesso, cuja única referência dependia de um registro fotográfico feito no local. O artista Artur Barrio, em 1970, fez um percurso pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro denominado 4 dias e 4 noites, caminhando sem um percurso definido. Neste evento, o artista abriu mão inclusive do registro fotográfico, pois nem ao menos deste tipo de suporte queria depender. Nesta época os artistas viveram o auge na experimentação.
Uma ação artística pode também embaralhar a cabeça do transeunte distraído em seu cotidiano pela cidade. Foi o que aconteceu perto das escadarias de uma estação de metrô, no Rio também, há dois anos, quando um grupo de artistas contratou alguns garotos para entregarem um cartão preto, sem nenhuma informação, a milhares de pessoas que por ali passavam, como se fosse outro papel qualquer. O resultado deste trabalho foi que o sistema de segurança do metrô entrou em alerta, uma vez que ninguém sabia do aquilo se tratava. Um outro artista, Jailtão, em 99, São Paulo, criou várias papeletas de xerox imitando aquelas que as crianças pobres entregam nos sinais, nos pontos de maiores circulação e dentro dos ônibus, só que ao invés do texto clássico pedindo ajuda, ele questionava o cidadão sobre suas posições políticas e artísticas, com o pedido final para receber um passe de ônibus ou um vale-refeição.
Para confundir os padrões estabelecidos que orientam a questão do gosto ou interferir deliberadamente nas relações de poder que envolvem as instituições, certas criações acabam se tornando símbolo de resistência de uma época, como é o caso das inserções em circuitos ideológicos, de Cildo Meireles, também do início dos anos 70, em que grudava adesivos transparentes com mensagens em garrafas de coca-cola e devolvia o casco à fabrica, fazendo com que este retornasse à circulação.
Recentemente, na abertura da mostra Arttrainee, no Castelinho do Flamengo, outra vez no Rio, o grupo Ponteseis colocou uma faixa pelo lado de fora do museu anunciando sua venda, criando um certo rebuliço envolvendo a imprensa e até o prefeito da cidade, com pessoas ligando indignadas com a venda do patrimônio público ou sonhando com outra ocupação para o local. É exatamente este tipo de discussão que o grupo pretende levar adiante, envolvendo o público em um debate sobre a importância dessas instituições.
Se tais ações podem parecer pouco ortodoxas em termos artísticos, ao menos é possível ver nelas uma saída de um estado absolutamente passivo em relação às instituições e mesmo aos meios empregados em sua criação, para vir ao mundo como potência transformadora dos lugares comuns.
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