Estranhos prazeres
Estranhos prazeres
O fetichismo inspira filmes, livros, exposições, reportagens e criações da moda, deixando para trás o estigma de perversão
Nelson Sato
Reprodução
Livro de fotos, publicado pela editora alemã Taschen, tematiza o fetiche por pés (acima). A indumentária fetichista numa das fotos do livro Fetiche - Moda, Sexo & Poder (abaixo)Um homem entra num quarto de motel e sugere à esposa que vista um uniforme de enfermeira e finja lhe aplicar uma injeção no bumbum.
Outro acorda a vizinhança com gemidos de prazer ao pedir para a parceira roçar os sapatos de salto alto em seu rosto.
Um terceiro não consegue controlar os suspiros no elevador enquanto fixa os olhos nos pés da ascensorista.
Você já se imaginou em alguma dessas situações fictícias? Caso a resposta seja positiva, não se acanhe. Você apenas faz parte do clube dos fetichistas, uma instituição nada convencional que parece abrigar cada vez mais simpatizantes mundo afora.
Pelo menos é o que sugere sua crescente difusão como tema inspirador de filmes, livros, exposições, reportagens e criações da moda. Na semana passada, por exemplo, a TV Manchete transportou o fetiche para a sala de estar como tema do programa Marcia Peltier Pesquisa, ao qual não faltaram entrevistados assumindo publicamente suas fantasias eróticas.
Reprodução
Agora é a vez da revista Sexy, que chega às bancas trazendo um ensaio de fotos do carioca Rodrigo Lopes, acompanhado de textos de autores famosos como James Joyce, Nelson Rodrigues e Dostoiévski. Tema da matéria: fetiche por pés. O material da revista é uma espécie de esboço de um projeto maior do fotógrafo, que planeja editar um livro sobre o assunto.
Fetichista convicto, Lopes garante no entanto que sua fixação por pés femininos é hoje mais estética do que sexual. Já fui mais obcecado. Cheguei a terminar um namoro por causa de um pé feio - revela ele. Sem exagero, não devem ser poucos os homens que pedem o pé - e não a mão - da noiva em casamento, quando atingem o auge da paixão.
Mas, apesar de ser um dos preferidos, o pé integra uma extensa galeria de obscuros objetos de desejo que incluem desde lingeries e uniformes escolares a roupas de couro e borracha. Casos extremos não dispensam lesmas ou baratas, que são espalhadas sobre o corpo durante uma sessão de auto-estímulo.
Para a escritora paulistana Gisela Rao, autora do livro de contos eróticos
Reprodução
Sex Shop, não há nada que apimente mais seu apetite entre quatro paredes do que uma cueca preta da Calvin Klein cobrindo as partes íntimas de seu parceiro. Mas tem de ser daquelas que descem até a coxa. Não gosto de cueca cavada - acrescenta.
Sua preferência, contudo, não é uma obsessão da qual ela precise para se satisfazer na cama. Acho inclusive que o fetiche é uma brincadeirinha, uma coisa meio infantil, bem diferente do amor puro, intenso e maduro encontrado no kama sutra - diz. Na onda em torno do tema, o cinema-cabeça também vem trazendo histórias picantes do gênero.
Dois filmes estimularam as taras inconfessáveis do público brasileiro recentemente: o documentário Fetiches, exibido há dois anos no Festival Internacional de Filmes do Rio de Janeiro, e a comédia de costumes Clube do Fetiche, apresentada na Mostra
Reprodução
Internacional de Cinema de São Paulo de 97 e atualmente em cartaz em algumas salas do País.
O primeiro, dirigido por Nick Broonfield, mostra cenas bizarras como a de um sujeito que pede para ser espancado vestindo uma roupa de garotinha e de um outro personagem que sussurra de prazer ao ser imobilizado com plástico. O segundo filme enfatiza o comportamento sadomasoquista escancarando o universo dos adeptos do chicote do Reino Unido.
O zelo do diretor Stuart Urban para com a ambientação levou-o, inclusive, a recrutar cerca de 400 figurantes da verdadeira cena sadomasô de Londres onde muitas cenas foram rodadas. Aliás, é descrevendo a Noite do Fetiche do clube londrino Torture Garden que a historiadora inglesa Valerie Steele introduz os leitores a seu último livro Fetiche - Moda, Sexo & Poder, lançado há pouco no Brasil pela editora Rocco.
Na obra, ela traça um detalhado painel das relações entre o mundo fashion e as fantasias sexuais. Para entender a moda contemporânea, é crucial explorar o fetichismo - sentencia ela, logo na abertura citando Jean-Paul Gaultier, Thierry Mugler, Dolce & Gabanna, John Galliano, Gianni Versace, Anna Sui e Vivienne Westwood como alguns dos estilistas de renome que incorporaram a estética dos pervertidos às suas criações.
Reprodução
Junto ao texto de Steele, várias fotos ilustram as páginas, sem, no entanto, ostentar os apelos fortemente eróticos que povoam os volumes lançados pela editora alemã Taschen. Estes, assinados por fotógrafos conceituados, já se encontram disponíveis até em formato de bolso nas livrarias brasileiras. Um prato cheio para fetichistas, voyeurs e turmas afins.
Reprodução
Reprodução





