Estranhas e tristes coincidências, curiosas ironias. Desta matéria e também de filmes, obviamente, é que são feitos os festivais. De vida e de morte.
France PresseO fato de Akira Kurosawa ter morrido justamente durante esta 55ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, 47 anos depois do triunfo de ‘‘Rashomon’’, aqui mesmo no Lido, com certeza tem muito de simbólico. ‘‘Veneza sempre me trouxe muita sorte, e pelo menos uma vez me salvou do desespero’’, costumava dizer. ‘‘Em 1950, os produtores me forçaram a cortar uma hora e meia de ‘O Idiota’, e chegaram a destruir os negativos para que não fosse possível nenhuma remontagem. Um dia estava voltando para casa, desesperado com este massacre - tinha decidido mudar de trabalho - quando minha mulher veio ao meu encontro: ‘Parabéns pelo prêmio em Veneza’. Eu nem mesmo sabia que ‘Rashomon’ tinha sido inscrito num festival no Ocidente. E o mérito era de uma italiana, que tinha estado em Tóquio, gostado do filme e recomendado ao diretor da mostra, contra a opinião do produtor, que achava o filme demasiadamente japonês.’’ E novamente ‘‘Rashomon’’, e Veneza por extensão, trariam outro impacto à vida de Kurosawa. Em 71, quando a produtora do filme faliu e provocou um terremoto no cinema japonês, Kurosawa, mais uma vez devorado pelo desespero, tentou o suicídio. Felizmente não teve êxito e o resto é pura arte e história: ‘‘Derzu Uzala’’, ‘‘Ran’’, ‘‘Kagemusha’’, ‘‘Sonhos’’, ‘‘Madadaio’’. Em homenagem a Kurosawa,‘‘Rashomon’’ foi exibido ontem à noite em Veneza, em sessão para convidados. Lástima que Veneza-98 não tenha até o momento oferecido nada à altura do mestre. A não ser uma instantânea retrospectiva-homenagem. E esta é a grande ironia.

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