Estranhamento saudável
Com manifestações que surgem em diversos formatos e estilos, a arte contemporânea estica o limite da compreensão do público, desconstruindo paradigmas e incitando a reflexão do espectador, que precisa - para compreender a profundidade da obra - sair da passividade, se transformando em um agente ativo da exposição.
''A arte, independente do gênero, sempre buscou o inusitado. Em todos os movimentos, o objetivo é atingir o público com um impacto, uma nova forma de expressão. No fundo, o que o artista pretende é sempre atingir o outro; é causar uma modificação, um incômodo'', analisa a artista plástica e fotógrafa londrinense Fernanda Magalhães.
Segundo a fotógrafa, no âmbito artístico, toda forma verdadeira de expressão é válida, e seus significados variam, dependendo do contexto em que a obra está inserida. ''O próprio pin hole, por exemplo, é uma linguagem que já foi muito utilizada, mas, hoje, resgatada no meio de um enxame de fotografias digitais, causa um estranhamento muito interessante'', reflete Fernanda, observando que a arte contemporânea pode ser multimídia, misturando tecnologias avançadas com linguagens antigas.
''Existe uma possibilidade inédita na arte contemporânea: a liberdade de usar várias linguagens ao mesmo tempo. Você mistura questões e métodos diferentes'', afirma a fotógrafa, que busca misturar em seus trabalhos diversas imagens, textos e colagens fotográficas. ''O importante é usar as ferramentas que você possui de uma forma verdadeira, com trabalhos que tenham conteúdo e que transmitam a percepção real do artista em relação ao mundo. A arte sempre precisa fugir da repetição'', completa.
Padronização de corpos
Fernanda Magalhães ganhou projeção internacional com o trabalho ''A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia'', exposto recentemente pela conceituada Maison Européenne de la Photographie - instituição francesa dedicada à exposição, divulgação e preservação da fotografia contemporânea.
''Foi um momento bastante importante, especialmente porque na França existe a questão das mulheres serem excessivamente magras, então meu trabalho provocou um questionamento. É uma temática que atinge os franceses'', analisa a fotógrafa, orgulhosa com a proporção que o seu trabalho atingiu nos últimos anos, sendo até objeto de um artigo de destaque na edição italiana da revista Vogue. ''Quando comecei a fotografar, o assunto era um tabu. Quase ninguém refletia sobre a questão da padronização dos corpos. No começo, o trabalho gerou muita discussão e, até, uma espécie de rejeição. O mundo mudou muito, e hoje fico feliz com essa resposta positiva'', admite Fernanda, orgulhosa. (R.C.)





