ESTRANHA OBSESSÃO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de julho de 2001
André Bernardo TV Press 
Os critérios que levam os atores a se decidir entre este ou aquele personagem não são muito previsíveis. Uns levam em consideração o que o papel tem de novo para acrescentar na carreira. Outros preferem imaginar o que o personagem tem de bom para passar para o público. Já a atriz Deborah Evelyn desenvolveu um processo bastante peculiar de seleção. Para ela, o que importa mesmo é a carga dramática do personagem. Quanto mais sofrido, melhor. Virgínia, a deficiente física que ela interpreta em Um Anjo Caiu do Céu, é um bom exemplo disso. Nunca vi graça em fazer a mocinha da história. Prefiro personagens mais densos e trágicos. Eles funcionam como uma espécie de catarse, classifica.
Na trama de Antônio Calmon, Virgínia não conseguia se relacionar com ninguém por causa da deficiência física. Na adolescência, a personagem perdeu parte da perna num atropelamento. No entanto, Virgínia recuperou a auto-estima ao se apaixonar pelo falso Selmo de Windsor, papel de Cássio Gabus Mendes. Todos os dias, Deborah se espanta com a quantidade de cartas que chega na Globo. Muitos telespectadores garantem que o exemplo dado por Virgínia ajudou a fazê-los enxergar a vida com outros olhos. O feedback do público tem sido bastante positivo. Não só de deficientes físicos, mas de pessoas que deram a volta por cima graças à Virgínia. É bom saber que estou ajudando o próximo com meu trabalho, emociona-se.
Muito antes de sensibilizar o público como a obstinada Virgínia, Deborah também se emocionou bastante com o exemplo dado por outras deficientes físicas. Assim que recebeu o convite para atuar em Um Anjo Caiu do Céu, a atriz resolveu passar um dia num centro de reabilitação em Niterói. Lá, conheceu e fez amizade com Ana Paula, fisioterapeuta que, há alguns anos, perdeu as duas pernas em um acidente de carro. No ano passado, Ana Paula trabalhou com os atletas que representaram o Brasil nas Paraolimpíadas de Sydney, na Austrália. Ela poderia ter ficado deprimida depois do que aconteceu, mas está seguindo adiante numa boa. Foi uma verdadeira lição de vida, elogia.
O fascínio de Deborah Evelyn por papéis dramáticos remonta à estréia da atriz na tevê. Na minissérie Moinhos de Vento, escrita por Daniel Más e dirigida por Walter Avancini em 1983, ela interpretou a filha de uma mulher que morria de câncer. Meu primeiro personagem já tinha essa forte carga emocional. Como ele deu certo, só passei a fazer isso..., brinca. De lá para cá, Deborah passou a colecionar tipos sofridos, como a Flávia de Selva de Pedra, a Ruth de Vida Nova e a Alkimena de Desejo. A última delas foi a Basília de A Muralha. A infeliz perdeu o marido e o filho numa tocaia e ainda ganhou uma grotesca cicatriz no rosto após lutar contra índios. Não sou de levar as personagens para casa. Na maioria das vezes, saio leve do estúdio porque chorei tudo o que tinha para chorar lá mesmo, diverte-se.
Quando não dá vida a personagens desvalidos, Deborah surpreende pelo senso de humor. Dona de uma expressão suave e voz firme, ela não esconde a alegria de estar contracenando com a tia: a atriz Renata Sorrah. Foi ela que incentivou a sobrinha a seguir carreira. Até hoje, Deborah não esquece o dia em que acompanhou a tia às gravações da novela Brilhante, de Gilberto Braga, em 1981. Por uma dessas coincidências que só acontecem em novelas, Renata fazia a mulher do futuro marido da sobrinha, o ator Dênis Carvalho, atual diretor de Um Anjo Caiu do Céu. Desde que me entendo por gente, sempre quis ser atriz. Nunca me imaginei fazendo outra coisa, ri.
Mesmo encarando o trabalho como válvula de escape, Deborah Evelyn não perde suas sessões de análise. Ela faz terapia desde os 15 anos, quando caiu de amores por um professor de Geografia e acabou sofrendo de anorexia. Na época, a aluna apaixonada chegou a pesar 35 quilos. Sofri por dois anos. Só melhorei com a análise, reconhece. Por precaução, a atriz continua recorrendo à terapia para não exagerar a dose quando entra em cena e tem de chorar as mágoas das personagens. As pessoas têm a obrigação de ser felizes. Algumas não precisam de terapia para isso. Outras precisam, justifica.


