Pouco antes do Carnaval, turistas chegam ao Rio de Janeiro com um objetivo: aprender a sambar. O entusiasmo pode observado em cursos destinados especialmente aos gringos, normalmente considerados duros demais para o requebro exigido no país tropical. E haja jogo de cintura.
A inglesa Christine Stevenson jamais imaginou que, ao vir para o Brasil como principal executiva da companhia National Power, do ramo de eletricidade, teria como atribuição aprender a sambar para entender melhor os brasileiros. Foi isso que ela fez e vai aproveitar o que aprendeu nas aulas do curso de Samba no Pé, de Jaime Aroxa, para evoluir hoje na Mangueira. Christine só não garante que vai arrasar na pista: ‘‘Eu até consigo seguir os passos, mas soltar o corpo como os brasileiros é dificílimo’’, justifica-se. ‘‘É uma questão cultural’’.
Christine veio ao Brasil a trabalho, mas dezenas de turistas procuram aulas de samba no pé para não fazer feio nas quadras de ensaio das escolas de samba ou no desfile do Sambódromo. Que o diga o professor Antônio José, que há quatro anos mantém contato com agências de viagem e já formou quase dez turmas em cursos de um mês em sua academia num hotel de Copacabana. ‘‘Eles não faltam a uma aula sequer e ficam felizes da vida com o diploma que recebem’’, conta ele.
Antônio José já sabe até dizer quem tem mais jeito para a batucada. ‘‘Os alemães são mais duros e os espanhóis têm certa ginga, mas quem supreende são os russos, que aprendem rapidinho a sambar’’, enumera o professor, que formou sua turma deste ano com vários alemães e portugueses. ‘‘Só dou aula de samba no pé no verão porque os turistas chegam, aprendem e vão embora’’, explica. ‘‘Os brasileiros preferem dança de salão e são mais fiéis, não faltam nunca.’’ Jaime Aroxa faz coro com Antônio José: ‘‘O meu curso tem 12 aulas, mas as turmas começam enormes e terminam pequenas porque a maioria abandona quando acha que já sabe sambar’’, diz Aroxa, que começou com 80 alunos e hoje terminou com 40. ‘‘Só os mais inibidos, que demoram mais a se soltar ficam até o fim, mas eu insisto até conseguir fazer um sambista’’.
A produtora de moda Eva Carrijo confirma a história de Aroxa. Ela nasceu em São José do Rio Preto, morou boa parte da vida em Los Angeles e agora, de volta ao Brasil há seis meses, resolveu aprender a sambar e porque se sentia muito inibida. ‘‘Lá em Los Angeles a gente vai a ballrooms para dançar salsa, merengue, mas raramente samba’’, conta Eva.
E Chirstine faz completa: ‘‘Na Inglaterra ninguém conhece samba, só um pouquinho de Bossa Nova, mas acho que o Brasil devia divulgar mais sua música porque tenho certeza de que os ingleses adorariam sambar em vez de dançar disco’’.
Eva, Christine e outros estrangeiros sabem perfeitamente que não conseguem a performance de um brasileiro, que ouve e dança samba desde criança. Mas no caso de Christine, além de ter cumprido seu objetivo de entender melhor o modo de pensar do Brasil, ela descobriu outra utilidade para as aulas de samba no pé. ‘‘Na verdade, quando tento soltar meu corpo no samba estou trabalhando também a mente e, por isso, digo a todo mundo que o Jaime Aroxa, meu professor, é também meu psicoterapeuta’’, conclui ela.

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