Criar o hábito de leitura em crianças é uma tarefa desafiante para pais e professores. Mas há formas que em geral dão certo, mas que ainda esbarram em preconceitos. São as histórias em quadrinhos, que enchem os olhos pelo colorido e podem enraizar valores difíceis de serem assimilados.
Numa tentativa de estimular novos desenhistas a investir nos gibis, o criador dos personagens Curitibinha, Paranazinho e Brasilzinho, o cartunista Marcos Vaz organizou um curso para profissionais com idade acima de 14 anos no Senac com início amanhã, e um workshop para jovens com mais de dez anos, no Shopping Mueller, todas as terças-feiras desse mês.
Em entrevista exclusiva à Folha2, Marcos Vaz contou que a História em Quadrinhos está na vida dele desde os seis anos e que profissionalmente trabalha desde 1988, quando criou o Umuaraminha, índio Xetá, símbolo da cidade de Umuarama. ''Umuarama foi o primeiro município a adotar um personagem de HQ como símbolo. O fato chamou tanto a atenção que saiu uma nota na revista Veja e de lá para cá não parei mais de trabalhar'', contou.
Foi nessa época que o Ministério da Justiça lançou um concurso para a elaboração da Cartilha da Justiça. Participaram, entre outros, Ziraldo e Maurício de Sousa, mas foi Marcos Vaz quem venceu a licitação. ''Quando soube que os dois estavam concorrendo nem ia me inscrever mas os amigos me incentivaram. Foi quando a minha carreira deslanchou. A Cartilha foi lançada em 1992, em Brasília e foram distribuidos dois milhões de exemplares'', lembrou.
Como uma coisa puxa a outra, o então prefeito de Curitiba Rafael Greca queria mais alguma coisa para as comemorações dos 300 anos da cidade. ''A idéia era marcar a cidade pela defesa do Meio Ambiente e da preservação da cidadania. Então, nasceu o Curitibinha, com cabelos em forma de folha, roupas com as cores da cidade e óculos de intelectual.''
O personagem foi parar no Jornal Curitibinha Escolar, com a tiragem de 110 mil exemplares por mês, distribuídos nas escolas da rede municipal. Tanto os textos como os desenhos eram criados por Marcos, sob orientação de técnicos pedagógicos da Secretaria da Educação. ''Esse jornal foi um sucesso. Eu recebia mais de 400 cartas por mês e abordava temas como o trânsito, cuidados com os rios até os vazamento de óleo no Rio Iguaçu. O jornal ficou em atividade 1993 a 2000, quando a prefeitura não renovou o contrato alegando falta de verbas.''
Depois dele, vieram o Paranazinho e o Brasilzinho, como personagens do Gibi do Juizado Especial e da Cidadania para o Tribunal de Justiça do Paraná. ''Agora tenho a perspectiva de realizar um trabalho para o Unicef, com uma cartinha sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente'', adiantou.
Tanto no curso no Senac como no workshop no Shopping Mueller, Marcos Vaz vai abordar também a história da História em Quadrinhos. Segundo ele, os primeiros registros remontam às pinturas rupestres, com as primeiras sequências. ''E por falar em sequência, a HQ tem o poder de fazer a mente criar um quadro intermediário entre cada desenho. Isso é inconsciente e prepara para a leitura de livros, onde não há quadro algum e as pessoas criam mentalmente todas as cenas.''
Mas foi o personagem ''Yellow Kid'', o marco dos atuais HQs. Criado pelo americano Richard Outcault, em 1895, eram histórias sem balões, em preto e branco e com abordagem perjorativa. ''Tanto que para o que chamamos de imprensa marrom, nos Estados Unidos é imprensa amarela, em referência ao Yellow Kid.''
Em função disso, as HQs causaram rejeição ao primeiro impacto. ''O Yellow Kid, era um menino peralta, que vivia nos guetos e fazia críticas sociais. Não pertencia à elite. Carregamos esse preconceito até hoje. Tanto que, ainda tem pais e professores que acham que se uma criança está lendo um gibi poderia ler alguma coisa ''melhor'''', reconhece Vaz.
E não é só nessa barreira que os Gibis esbarram. Há ainda a hegemonia do norte-americano Sindicate, empresa que faz a distribuição mundial dos HQs. ''O único brasileiro que conseguiu entrar no mercado norte-americano foi o Maurício de Sousa. Ele até ganhou o prêmio Yellow Kid''. Outro que conseguiu sobreviver com as HQs foi Henfil, com o personagem Os Fradinhos. ''Mas o Sindicate é tão forte que no Brasil, por exemplo, não existe uma loja de HQ, como nos Estados Unidos há dos Comics. Os produtos nacionais só são encontrados dispersos'', conferiu o catunista.
Mas mesmo assim, o Brasil tem grande nomes de cartunistas como Flávio Colin (O Boi das Asas de Ouro), Ziraldo (O Menino Maluquinho e Pererê), Roger Cruz (Quebra-Queixo), Angeli (Rebordosa), Glauco (Geraldão), Péricles (O Amigo da Onça), sem esquecer dos personagens mundiais do argentino Quino (e sua combativa e politizada Mafalda), dos franceses Uderzo Goiccine (Asterix e Obelix) e Hergé (Tim-Tim), do viking Dik Browne (Hagar), até os atuais japoneses criadores da Akira, Pokemom, Digimom e Captors Sailors. E quem não se lembra dos personagens da Editora Rio Gráfica: Brucutu, Pinduca e Flash Gordon?
• Curso de História em Quadrinho, para profissionais com idade acima de 14 anos. Início amanhã com prosseguimento até 19 de dezembro, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 14 às 17 horas, no Senac (Rua André de Barros, 750 telefone: (41) 219-4800), em Curitiba. Em dezembro, o curso será de segunda a sexta-feira, no mesmo local. Inscrições a R$ 140,00 ( em quatro vezes). Workshop de HQ, todas as terças-feiras desse mês, das 15 às 18 horas, em frente às Lojas Americanas, no Shopping Mueller.

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