ESTÍMULO - Música envolve 1.800 crianças
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quarta-feira, 30 de novembro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Eles não são ''manos'' nem ''minas'' legítimos, mas aprenderam através do hip hop a cantar as suas verdades com frases simples, objetivas e em um ritmo cadenciado que contagia e facilita a memorização das letras que retratam a realidade das crianças atendidas pelo Projeto Viva Vida, em Londrina, que é vinculado à Secretaria de Assistência Social e funciona em parceria com a Provopar. Criado em 1994, atualmente estão em funcionamento 14 núcleos de atendimento em diversos bairros da cidade para crianças carentes de 6 a 14 anos, em situação de vulnerabilidade social, que em contraturno aprendem de forma lúdica e criativa a acreditar nos sonhos, ter a sua infância preservada e a alegria de viver. Com um misto de ansiedade e satisfação, 1.800 crianças aguardam o lançamento do CD em que cada uma delas colaborou na elaboração das letras. O evento deverá ser realizado na segunda quinzena de dezembro, na Epesmel. Será distribuído um CD para cada família atendida pelo projeto, que totaliza 1.071 famílias.
As atividades realizadas com os participantes do projeto englobam diversas linguagens como capoeira, música, hip hop, artes cênicas, artesanato e foi uma surpresa quando as crianças foram informadas de que iriam participar da gravação de um CD. Elas contaram que no início as educadoras de cada unidade pediram apenas que elas escrevessem frases curtas com temas livres. Só mais tarde é que ficariam sabendo que as frases feitas ganhariam ritmo musical. A maioria das letras ganhou o suingue do hip hop, mas também houve experiências de letras musicadas em MPB e berimbau. Para a gravação do CD, participaram um grupo de aproximadamente dez crianças de cada unidade. No total, foram gravadas 15 faixas: 14 faixas de participantes do Viva Vida e uma faixa de integrantes de um projeto para a profissionalização de adolescentes, na Vila Brasil.
Oséias Fernandes da Silva, 12 anos, mora no João Turquino e faz parte do Viva Vida desde os 7 anos. O seu irmão mais novo também estuda na unidade. Bastante comunicativo, Oséias contou que adorou a experiência de cantar, mas que não pretende seguir a ''carreira profissional'' de cantor. ''Achei que a nossa música ficou afinada e bonita, mas o meu sonho mesmo é ser jogador de futebol'', afirmou, com convicção. Ele, que mora com os pais mais dois irmãos, disse que todos ficaram contentes quando chegou em casa contando que iria gravar o seu ''primeiro CD''.
Na companhia de alguns dos seus colegas do Viva Vida, cantou com orgulho a música que a sua unidade foi responsável. Entre as frases cantadas em ritmo de hip hop, o relato realista que diz: ''na barraca de lona aprendi um pouco de malandragem, no barraco não tinha esperança, as pessoas passam fome porque não têm emprego...''. Mas no final ressalta a quantidade de coisas boas que está aprendendo no projeto, entre elas, a importância do respeito.
Grasiele Fernanda de Moraes também estuda no Viva Vida desde os 7 anos, mas este é seu último ano no Projeto Viva Vida, pois está com 14 anos. Sem nunca ter tido uma repetência na escola, no ano que vem pretende fazer um curso de auxiliar-administrativo, na Epesmel. Na unidade que estuda, no Jardim Marabá, foi feita a criação coletiva do ''Rap do Marabá''. Quando contou para os pais sobre o CD, afirmou que eles disseram que elogiaram mais essa oportunidade de aprender coisas boas que eles estavam tendo. ''Gosto muito do Viva Vida. Quando a gente fica em casa, não tem muito o que fazer, e acaba indo para a rua, que é um lugar perigoso'', destacou Grasiele.
Além de curtir as aulas de artesanato, ela é fã de teatro. Grasiele é atriz do Teatro do Oprimido, desenvolvido no bairro em que mora. De 8 a 15 de novembro, o seu grupo se apresentou na Argentina. ''O nosso teatro mostra a realidade da periferia e fomos muito bem recebidos lá'', comemora.
Na letra de música que ela ajudou a criar, rimas que falam da dor de ver crianças pela rua cheirado cola, da falta de alternativa para elas, e da alegria de se sentir amada e respeitada.
Segundo a gerente da Provopar, Lenir Cândida de Assis, a idéia de gravar um CD surgiu em maio, de iniciativa da própria equipe responsável pelo projeto, que contou com a colaboração do oficineiro de hip hop Alessandro Bisikirkas, como uma forma de estimular a criatividade das crianças, valorizá-las e mostrar de forma ''concreta'' o talento delas através do CD. ''O legal do CD é que ela mesmas podem se ouvir, levar para casa, é uma forma de eternizar o talento delas'', observou Jeane Botelho, gerente de garantia de direitos sócio-assistenciais a criança, ao adolescente e a juventude.
Jeane também informou que o trabalho do Projeto Viva Vida visa envolver as crianças na comunidade em que vivem e que é comum elas fazerem apresentações artísticas nos postos de saúde dos bairros e outros locais públicos. ''Elas adoram e se sentem muito valorizadas quando isso acontece.''
O projeto busca integrar as famílias e não é raro as mães participarem das atividades que são oferecidas aos filhos. Edilene Ferreira da Silva, que é coordenadora da unidade do Marabá, explicou que é feito um trabalho sistematizado de planejamento e que cada vez mais está se conseguindo aumentar a participação dos pais. ''Aqui são as próprias crianças que elaboram os convites para os pais participarem das atividades. O nosso espaço também é da família e estamos de portas abertas'', garantiu.
A coordenadora-geral do projeto, Elsie Machado de Almeida, adiantou que existe a expectativa do projeto Viva Vida ser ampliado no ano que vem e que apesar de haver outros projetos contemplando crianças carentes da cidade, há cerca de 1.000 crianças na lista de espera por uma vaga no Projeto Viva Vida.


