ESTILO - Cabeças à mostra
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Pode não ser exatamente uma opção, mas cada vez mais homens, sejam eles famosos, anôminos, desesperados ou simplesmente resolvidos e felizes, assumem a sua condição de calvo. Condição antiga, aliás, que já rendeu máximas como ''é dos carecas que elas gostam mais'' ou ditados semelhantes utilizados com frequência na hora de justificar essa característica cada vez mais comum. O fato é que a moda hoje favorece os homens que estão de bem com seus cabelos. Ou com a falta deles. É só dar uma zapeada na televisão, nos clipes da MTV e nas revistas mais modernas. A calvície atualmente é quase um estilo de vida.
Que o diga o empresário curitibano Elon Marcos Ferreira, de 39 anos. Aos 22 anos, ele começou a perceber que estava perdendo os cabelos. Fez de tudo. De massagem capilar a tratamentos químicos, paralelamente a dietas. ''Nessa época, eu não gostava nem de ficar sentado em restaurantes porque achava que as pessoas estavam reparando que eu estava ficando calvo'', confessa. Tempos que foram deixados para trás sem culpa. Há quase dez anos, o empresário começou a mudar seu conceito depois que passou a viajar para fora do País e perceber que a calvície não era exatamente uma característica singular.
Foi quando, de volta ao Brasil, entrou no banheiro e, sem contar para ninguém, raspou toda a cabeça, abandonando os poucos fios que lhe restavam. ''A reação das pessoas foi a mais diversa, alguns amigos chegaram a perguntar se eu tinha sofrido um acidente'', conta. Mas para ele, o resultado agradou de imediato. ''Me senti mais livre, a preocupação em manter os cabelos estava virando uma neurose.''
Hoje ele assume a condição com classe. Abusa das roupas pretas e de acessórios. ''Uso cordões no pescoço e alterno: quando estou com a cabeça totalmente raspada, deixo a barba por fazer; quando os cabelos começam a crescer um pouco, deixo costeletas'', ensina. O único empecilho é saber que não pode mudar radicalmente o visual. ''Mas já me acostumei assim, hoje não consigo me imaginar com cabelo'', revela.
Para o músico Rodrigo Barros Homem Del'Rey, 40 anos, vocalista do Maxixe Machine, a percepção de estar ficando calvo não foi exatamente uma surpresa. ''Desde os 20 anos eu já sabia que ia ficar careca porque meu pai é calvo. É uma condição genética'', disse à Folha. Acostumado com a idéia desde cedo, o músico abusou de todos os topetes até os 20 anos, mas antes mesmo de começar a perceber a inevitável queda, raspou toda a cabeça e teve época que nem as sobrancelhas escapavam. ''Como eu era punk, isso facilitava bastante, mas eu nunca tive a relação emocional que os hippies têm com os cabelos'', brinca.
Hoje, o músico mantém o visual cortando os cabelos com navalha ou máquina. ''Nunca pensei em ter o padrão Ken de beleza'', diz, referindo-se ao namorado bonitão e cabeludo da boneca Barbie. Já quanto a ser uma referência e às eventuais piadinhas dedicadas aos que assumiram a condição, o músico comenta, divertido-se: ''Depende do meio em que você está. Numa torcida de futebol, certamente se é uma referência, mas na minha banda, que tem mais dois carecas como eu, não''.
Mas ser ou estar ficando careca nem sempre é uma condição aceita com naturalidade. O presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Márcio Rutowitch, diz que quando a queda de cabelos prejudica a auto-estima, não tem moda ou estilo que resolva. ''O homem tem que se sentir bem consigo mesmo, caso contrário deve procurar ajuda'', salienta.
Segundo o dermatologista, atualmente há dois medicamentos modernos no mercado que prometem acabar com o problema de quem não se sente bem com a falta de cabelos. Um deles, há cinco anos no mercado, é a base de ''finasterida'' e é vendido pelo nome comercial de Propécia. O outro, chamado Avicis, tem o mesmo princípio ativo. ''A diferença é que o primeiro não pode ser usado por mulheres, já o Avicis pode ser usado tanto por homens quanto por mulheres'', diz.
Os dois medicamentos interrompem o processo de miniaturização dos fios, impedindo a queda dos cabelos. ''Mas esses medicamentos não devem ser usados sem a indicação do médico. Se a pessoa não está se sentido bem com a queda dos cabelos, deve procurar um dermatologista com urgência'', aconselha.
Rutowitch ainda explica que existem três tipos de quedas, em duas delas o cabelo cai em grande quantidade e é de fácil percepção. Na terceira e mais comum, a queda acontece ao longo dos anos e é quase imperceptível. ''Perder de 80 a 100 fios de cabelos por dia é normal e acontece com todo mundo, acima disso a pessoa deve procurar um médico para ver se existe algum problema de saúde'', diz.
O médico ainda revela algumas crendices sobre a queda dos cabelos e quais têm fundamento ou não. Veja quadro.


